quinta-feira, 8 de maio de 2008

Prostituta, não com todas as letras.

Impostora: lilian lovisi



Ela era uma mulher da vida. Da boa vida. Passava a manhã inteira dormindo, de tarde fazia o que mais lhe dava prazer: escrevia, escrevia contos, crônicas, histórias, peças de teatro, cartas, e-mails, escrevia, escrevia, escrevia. Era o que mais gostava de fazer. À noite, trabalhava com uma coisa que dava prazer aos homens e não a ela. E assim ia levando a vida. Bonita, solteira e letrada. Ela escrevia por amor e trepava por dinheiro.
Um dia, caiu na indiscrição de revelar a um cliente mais assíduo que escrevia.
– Deixe-me ver – ele pediu se recostando na cama.
Ela ficou meio sem graça, um sentimento de vergonha subiu pelas faces, ficando completamente vermelha.
– Mostrar pra você, assim, sem mais nem menos?
– Como sem mais nem menos? Me mostra agora, aproveita que eu tô aqui e sou um jornalista. Já critiquei muitos livros, tenho capacidade para avaliar se você leva jeito ou não pra escrever. A história não está aí?
– Está, na bolsa.
– Então me mostra.
– Não sei... tenho vergonha… eu nunca mostrei meus textos antes…
– Vergonha? – vociferou o cliente. – Você trepa comigo, chupa meu pau, faz sexo anal, satisfaz minhas fantasias de sadomasoquismo e tem vergonha de me mostrar um texto?
– É que um texto é muito pessoal, é muito íntimo... eu prefiro mostrar a vagina do que mostrar uma vírgula minha.
– Mas… e se você tiver jeito? Quem sabe você não ganha dinheiro com isso, mulher!
– Olha aqui, dinheiro eu ganho fazendo sexo. Não contos. Eu sou uma prostituta, mas não sou uma prostituta da literatura. Não escrevo para que me paguem. Isso eu faço por amor, e nesse ponto sou muito antiga. Não pode ser qualquer um a ver meus textos, a descobrir onde tenho mais reticências ou se uso pontos de exclamação. Isso tem que ser pra alguém especial.
– Mas eu já fui crítico de literatura, fiz críticas pra Veja!
– Ainda não estou pronta. Me leva pra casa?
– Ah, não – ele insistiu. – Eu vou ver seu texto nem que seja na base do estupro.
Dizendo isso, ele abriu a bolsa dela e catou seus textos.
Ela correu atrás dele pelo quarto. Ele peladão e ela peladona, ele chacoalhando o berimbau e ela balançando os peitos perfeitos. Até que ele conseguiu entrar no banheiro e trancou a porta.
– Abre, me deixa entrar! – gritou ela.
– Cala a boca, deixa eu ler.
– Não faz isso, eu ainda sou virgem nesse aspecto.
– Pois vai deixar de ser. Estou vendo tudinho: seus pontos, suas vírgulas, estou descobrindo você…
E ela se sentou na porta do banheiro, vermelha, envergonhada com tal situação.
Uma hora depois, ele saiu do banheiro completamente petrificado.
– Desculpe, eu perdi a cabeça…
– E então, o que você achou?
– Ah… agora tá querendo saber, né?
– Diz… ela implorou. – Foi bom pra você? Eu te satisfiz?
Ele a abraçou e disse:
– Me mostra mais. Eu quero umas três seguidas.
E passaram na casa dela para ele olhar seu computador. Nunca ninguém havia ido tão longe com ela.

domingo, 4 de maio de 2008

Carol

Por Adriane Salomão



Atrasada de novo. Nunca consegui entender muito bem as mulheres, mas Carol é demais! Para marcar um cineminha simples, daqueles de tarde de domingo, tenho que mentir e convidá-la para o café da manhã. Assim, talvez, consiga pegar a sessão das nove da noite.
Pior são as histórias que ela me conta. Ela pensa que eu acredito, mas eu não acredito, não e não. Só não termino porque... porque... ora, eu não sei por quê! Talvez porque eu a ache linda, porque me derreta quando vejo aquele sorriso largo, aquele seu modo de ajeitar o decote, de mexer nos cabelos. E faz de propósito! Basta eu fechar a cara que lá vem ela toda rebolativa, ajeita os seios, joga os cabelos e diz bem perto do meu ouvido:
- Que foi? Que foi, docinho? Tá zangadinho, huum?
Ai! Isso me mata! Quando ela faz, sinto uma quentura, me dá uma coisa que, enfim, esqueço-me de tudo. Quando ela faz assim, não tem jeito, agarro em sua cintura, encho-a de beijos até sentir sua pele arrepiada. Aí, é ela quem me abraça e eu...ora eu... quem sou eu? Sou um nada nas mãos dessa mulher, essa é a verdade.
Mas, outro dia, ela me tirou do sério e quase terminei tudo. Faltou um fio, um fio! Era dia dos namorados e tínhamos combinado de ficarmos juntos. Reservei um restaurante bacana para as sete horas, com vela na mesa e tudo. Ela prometeu, jurou que não se atrasaria. Acreditei não acreditando, e não contei do jantar. Falei que era almoço, ao meio-dia. Ela fez que sim olhando nos meus olhos. Fiquei firme. Meio-dia em ponto, Carol! - repeti.
Se ela cumprisse a promessa, executaria o plano B, ou seja, eu a levaria para almoçar, depois sorvete, um cineminha e, por fim, o jantar, bem romântico.
O relógio marcou doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e uma... Nada! Pensei: morreu! Foi seqüestrada, atropelada, pisoteada. Deve estar perdida, deve ter trocado a data. Só pode ser!
Às vinte e uma e um segundo chega ela. Eu, verde de fome, de raiva, de frio, carente, desiludido, o coração nem batia mais. Disse que tinha sido assaltada, perseguida por uma gangue que tentou roubar sua bolsa e que teve que correr muitos quilômetros. Que só conseguiu se livrar dos moleques porque aplicou um dos golpes que aprendeu numa das aulas na academia de ginástica, mais algumas bolsadas para lá e para cá. Aí, começou a chorar, a fazer beicinho, biquinhos. Disse que a culpa era minha, que não a protegia, que não lhe dava atenção e a deixava sozinha. Ainda me chamou de egoísta, obrigando-me a pedir desculpas. No final, acabou tudo bem. Dividimos uns sanduíches de um botequim qualquer e brindamos com cerveja mesmo, fazer o quê?!
Mas suas desculpas ficaram entaladas. No dia seguinte, dei-lhe um gelo. Ela pensava que eu era bobo! Fiz aquela cena toda porque estava frágil e não ia discutir justo no dia dos namorados e fui mesmo, um gelo. Quer dizer, gelo até a hora em que Carol se aproximou, começou a falar que o dia estava lindo, que o céu estava como os meus olhos e chegou mais perto, mais perto e eu comecei a sentir aquele perfume que vinha dela, aqueles olhinhos tão pertinho dos meus. E ela ajeitando os peitinhos... Ai!
Está bem. Em termos de resistência à corte feminina, sou mesmo o fracasso do fracasso, tenho que admitir.
Hoje, mais uma vez, cá estou eu, plantado, esperando...
Será que ela vem? Será que desistiu? Será que encontrou outro, outra, outros, outras? Será que não me quer mais? Olha que dessa vez ela está com um monte de gente em volta, todos recomendadíssimos, muito bem instruídos para que não a deixem se atrasar. Mas está, está atrasada.
Ah, não, não está! Lá vem ela... linda, chegando devagar, um pezinho na frente do outro. Acho que está nervosa, vejo suas mãos tremerem. Nunca a vi tão bonita como hoje. Um véu cobre seu rosto, outro segue seus passos e rendas enfeitam seus seios.
- Sim, aceito, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A QUEDA

Impostora: Lilian Lovisi



Ele já tinha sido perfeito. Não era mais. Fechou os olhos e pensou nos tempos de glória, quando todos o achavam lindo, inclusive ela. Áureos tempos em que era admirado por ela e por eles, quando podia andar solto, livre, displicentemente, sem maiores preocupações. Ele era feliz e não sabia. Agora, os tempos eram outros. Os anos haviam passado, sentia-se judiado por demais, e no momento não restava outra coisa senão a queda. Ela seria rápida, não demoraria mais que alguns segundos. Sairia do topo e chegaria embaixo em milésimos de segundos. E quando chegasse lá embaixo, o que restaria pra ele? Nada, só as lágrimas dela. Enfim, veria as lágrimas dela rolarem por causa dele, veria a cara de indignação de outras pessoas, veria alguém tentando ajudar, tentando fazer alguma coisa para que ele ainda pudesse sobreviver, voltar a ser o que era antes. E talvez não visse nada disso, talvez nem a visse mais, só veria o chão, o asfalto quente, só veria aqueles pentelhos atrevidos a pedirem seu salto no escuro, a gozar daquela situação insustentável pra ele . Talvez visse o traço da cesariana dela, a unha do pé malfeita, e só. Deus do céu, só isso? Nunca mais olhar para as pessoas de frente, nunca mais encarar as pessoas de frente, só andar com a cabeça baixa, humilhada, como se não lhe restasse mais nada. Como se tivesse que carregar para sempre o peso daquele gesto que ele iria fazer agora. Mais cedo ou mais tarde, que fosse agora, já. Fechou os olhos novamente e se atirou. Ao longo do trajeto, foi sentindo o seu próprio peso. Achou que a queda seria mais rápida, mas não foi isso o que aconteceu. Parecia aquela coisa de rever os momentos antes de morrer. Ele reviveu seu passado brilhante, suas idas à praia, suas horas no sol com ela, suas idas a cachoeira, lembrou-se do tempo em que ela ficou grávida e ele ficou grávido junto com ela, chegou a inchar, a ter os mesmos desejos de amamentar. E foi repassando a sua vida. Lembrou-se do primeiro sutiã, lembrou-se do tecido que ela às vezes usava e que roçava muito a sua pele, lembrou o que mais o deixava feliz, o que mais o deixava triste e, pumba, caiu finalmente, estatelado, desanimado, no corpo dela. Foi uma queda de um metro e sessenta e cinco de altura. Agora todos saberiam que ele estava ali. Ela ainda não havia se dado conta, mas iria perceber um dia que ele havia caído bem ali, na frente dela. Ele abriu os olhos pra ver em que mundo se encontrava então, e deu de cara com os benditos pentelhos a lhe dizerem “alô”. E embora ele tenha pensado que os pentelhos o massacrariam, que iriam gargalhar por aquela queda tão abrupta, tão suicida, deu-se conta de que eles pareciam amistosos e preocupados. Acenaram, perguntaram se estava tudo bem, se a queda o tinha machucado em algum ponto.
– Só no fundo do meu coração – disse o peito. – Eu caí, eu saltei de um metro e sessenta e cinco de altura, e agora não tem mais retorno. Já não agüentava mais ficar me equilibrando, sabendo que no próximo segundo poderia cair. Foi melhor assim. Pelo menos, me deu tempo pra pensar, raciocinar. Me deu tempo pra estudar a altura, me deu tempo até pra desejar essa queda.
E mais rápido do que ele esperava, fez amizade com os pentelhos, com os dedos do pé, com o joelho, descobrindo que existia vida após a queda, vida mais inteligente. Alguns meses depois, ficou sabendo por fontes fidedignas que havia mais alguém planejando um suicídio, uma queda: a bunda.