Por Adriane Salomão
Atrasada de novo. Nunca consegui entender muito bem as mulheres, mas Carol é demais! Para marcar um cineminha simples, daqueles de tarde de domingo, tenho que mentir e convidá-la para o café da manhã. Assim, talvez, consiga pegar a sessão das nove da noite.
Pior são as histórias que ela me conta. Ela pensa que eu acredito, mas eu não acredito, não e não. Só não termino porque... porque... ora, eu não sei por quê! Talvez porque eu a ache linda, porque me derreta quando vejo aquele sorriso largo, aquele seu modo de ajeitar o decote, de mexer nos cabelos. E faz de propósito! Basta eu fechar a cara que lá vem ela toda rebolativa, ajeita os seios, joga os cabelos e diz bem perto do meu ouvido:
- Que foi? Que foi, docinho? Tá zangadinho, huum?
Ai! Isso me mata! Quando ela faz, sinto uma quentura, me dá uma coisa que, enfim, esqueço-me de tudo. Quando ela faz assim, não tem jeito, agarro em sua cintura, encho-a de beijos até sentir sua pele arrepiada. Aí, é ela quem me abraça e eu...ora eu... quem sou eu? Sou um nada nas mãos dessa mulher, essa é a verdade.
Mas, outro dia, ela me tirou do sério e quase terminei tudo. Faltou um fio, um fio! Era dia dos namorados e tínhamos combinado de ficarmos juntos. Reservei um restaurante bacana para as sete horas, com vela na mesa e tudo. Ela prometeu, jurou que não se atrasaria. Acreditei não acreditando, e não contei do jantar. Falei que era almoço, ao meio-dia. Ela fez que sim olhando nos meus olhos. Fiquei firme. Meio-dia em ponto, Carol! - repeti.
Se ela cumprisse a promessa, executaria o plano B, ou seja, eu a levaria para almoçar, depois sorvete, um cineminha e, por fim, o jantar, bem romântico.
O relógio marcou doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e uma... Nada! Pensei: morreu! Foi seqüestrada, atropelada, pisoteada. Deve estar perdida, deve ter trocado a data. Só pode ser!
Às vinte e uma e um segundo chega ela. Eu, verde de fome, de raiva, de frio, carente, desiludido, o coração nem batia mais. Disse que tinha sido assaltada, perseguida por uma gangue que tentou roubar sua bolsa e que teve que correr muitos quilômetros. Que só conseguiu se livrar dos moleques porque aplicou um dos golpes que aprendeu numa das aulas na academia de ginástica, mais algumas bolsadas para lá e para cá. Aí, começou a chorar, a fazer beicinho, biquinhos. Disse que a culpa era minha, que não a protegia, que não lhe dava atenção e a deixava sozinha. Ainda me chamou de egoísta, obrigando-me a pedir desculpas. No final, acabou tudo bem. Dividimos uns sanduíches de um botequim qualquer e brindamos com cerveja mesmo, fazer o quê?!
Mas suas desculpas ficaram entaladas. No dia seguinte, dei-lhe um gelo. Ela pensava que eu era bobo! Fiz aquela cena toda porque estava frágil e não ia discutir justo no dia dos namorados e fui mesmo, um gelo. Quer dizer, gelo até a hora em que Carol se aproximou, começou a falar que o dia estava lindo, que o céu estava como os meus olhos e chegou mais perto, mais perto e eu comecei a sentir aquele perfume que vinha dela, aqueles olhinhos tão pertinho dos meus. E ela ajeitando os peitinhos... Ai!
Está bem. Em termos de resistência à corte feminina, sou mesmo o fracasso do fracasso, tenho que admitir.
Hoje, mais uma vez, cá estou eu, plantado, esperando...
Será que ela vem? Será que desistiu? Será que encontrou outro, outra, outros, outras? Será que não me quer mais? Olha que dessa vez ela está com um monte de gente em volta, todos recomendadíssimos, muito bem instruídos para que não a deixem se atrasar. Mas está, está atrasada.
Ah, não, não está! Lá vem ela... linda, chegando devagar, um pezinho na frente do outro. Acho que está nervosa, vejo suas mãos tremerem. Nunca a vi tão bonita como hoje. Um véu cobre seu rosto, outro segue seus passos e rendas enfeitam seus seios.
- Sim, aceito, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe.
domingo, 4 de maio de 2008
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Um comentário:
gostei, prinncipalmente do final.
bjs
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