Impostora: Lilian Lovisi
Ele já tinha sido perfeito. Não era mais. Fechou os olhos e pensou nos tempos de glória, quando todos o achavam lindo, inclusive ela. Áureos tempos em que era admirado por ela e por eles, quando podia andar solto, livre, displicentemente, sem maiores preocupações. Ele era feliz e não sabia. Agora, os tempos eram outros. Os anos haviam passado, sentia-se judiado por demais, e no momento não restava outra coisa senão a queda. Ela seria rápida, não demoraria mais que alguns segundos. Sairia do topo e chegaria embaixo em milésimos de segundos. E quando chegasse lá embaixo, o que restaria pra ele? Nada, só as lágrimas dela. Enfim, veria as lágrimas dela rolarem por causa dele, veria a cara de indignação de outras pessoas, veria alguém tentando ajudar, tentando fazer alguma coisa para que ele ainda pudesse sobreviver, voltar a ser o que era antes. E talvez não visse nada disso, talvez nem a visse mais, só veria o chão, o asfalto quente, só veria aqueles pentelhos atrevidos a pedirem seu salto no escuro, a gozar daquela situação insustentável pra ele . Talvez visse o traço da cesariana dela, a unha do pé malfeita, e só. Deus do céu, só isso? Nunca mais olhar para as pessoas de frente, nunca mais encarar as pessoas de frente, só andar com a cabeça baixa, humilhada, como se não lhe restasse mais nada. Como se tivesse que carregar para sempre o peso daquele gesto que ele iria fazer agora. Mais cedo ou mais tarde, que fosse agora, já. Fechou os olhos novamente e se atirou. Ao longo do trajeto, foi sentindo o seu próprio peso. Achou que a queda seria mais rápida, mas não foi isso o que aconteceu. Parecia aquela coisa de rever os momentos antes de morrer. Ele reviveu seu passado brilhante, suas idas à praia, suas horas no sol com ela, suas idas a cachoeira, lembrou-se do tempo em que ela ficou grávida e ele ficou grávido junto com ela, chegou a inchar, a ter os mesmos desejos de amamentar. E foi repassando a sua vida. Lembrou-se do primeiro sutiã, lembrou-se do tecido que ela às vezes usava e que roçava muito a sua pele, lembrou o que mais o deixava feliz, o que mais o deixava triste e, pumba, caiu finalmente, estatelado, desanimado, no corpo dela. Foi uma queda de um metro e sessenta e cinco de altura. Agora todos saberiam que ele estava ali. Ela ainda não havia se dado conta, mas iria perceber um dia que ele havia caído bem ali, na frente dela. Ele abriu os olhos pra ver em que mundo se encontrava então, e deu de cara com os benditos pentelhos a lhe dizerem “alô”. E embora ele tenha pensado que os pentelhos o massacrariam, que iriam gargalhar por aquela queda tão abrupta, tão suicida, deu-se conta de que eles pareciam amistosos e preocupados. Acenaram, perguntaram se estava tudo bem, se a queda o tinha machucado em algum ponto.
– Só no fundo do meu coração – disse o peito. – Eu caí, eu saltei de um metro e sessenta e cinco de altura, e agora não tem mais retorno. Já não agüentava mais ficar me equilibrando, sabendo que no próximo segundo poderia cair. Foi melhor assim. Pelo menos, me deu tempo pra pensar, raciocinar. Me deu tempo pra estudar a altura, me deu tempo até pra desejar essa queda.
E mais rápido do que ele esperava, fez amizade com os pentelhos, com os dedos do pé, com o joelho, descobrindo que existia vida após a queda, vida mais inteligente. Alguns meses depois, ficou sabendo por fontes fidedignas que havia mais alguém planejando um suicídio, uma queda: a bunda.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Adorei!!Muito engraçado e original
Postar um comentário