quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sobre o equilíbrio

Autora: Manuela Dutra

Diego franziu o cenho. Seu mundo acabara de desabar. Miguel praticamente lhe tirara o chão. Como assim não existe? Será que até aquele dia todo mundo vinha mentindo pra ele?

Miguel e Diego tinham a mesma idade. Idade biológica porque em experiência Miguel era muito mais velho. Pais separados – ele cineasta, ela produtora. Por parte de pai, uma irmã mais nova. Pela mãe, três irmãos, um mais velho e dois mais novos, cada um de um marido diferente. Essa situação fazia de Miguel um menino desinibido e esperto. Miguel sabia se virar – tinha traquejo em lidar com as coisas. Por exemplo, Miguel jamais se separava de sua mochila escolar já que nunca tinha certeza da casa em que iria dormir. Se tivesse aula no dia seguinte, sabia que a professora jamais perdoaria a falta do material e, principalmente, do dever de casa.

Me lembro de uma ocasião em que Miguel telefonara para Diego fazendo um convite. Deixara o seguinte recado na secretária eletrônica:

- Alô, Diego, é Miguel. É que hoje minha mãe vai passear com o pai do meu irmão e eu escolhi você para vir brincar. Me liga quando chegar.

O pai do meu irmão. Nunca ensinaram Miguel a chamá-lo de padrasto até porque Miguel tinha um pai presente e de quem ele gostava muito.

Já, Diego... Comparado a Miguel era quase um zen. Sereno, observador e reflexivo. Poucos assuntos o abalavam. Nem mesmo o dever de casa do dia seguinte. E seu universo era bem menor. Pai e mãe casados, uma irmã mais nova e alguns amigos na escola. Nem primos Diego tinha. Ah, sim! Havia os livros, eternos companheiros de Diego. Gostava de brincar de SL com os adultos, “sala de leitura”. Cada um lê um pouco e no final você me conta o que leu e eu te conto o que li.

Mas esse hábito não fazia de Diego um menino mais bem informado. Pelo menos era assim que ele sentia. Miguel vinha sempre com uma novidade quente:

- Aí, Diego, eu saquei minha espada e tchan! Fui para cima de você!
- Mas, graças a Deus, eu consegui pular e a espada não me pegou.
- Que Deus, Diego! Deus não existe. Vou te contar como foi. No início tinha uma bola de fogo grande. Aí veio um monte de explosões, que formaram os planetas e a terra. Depois veio a água, o carbono e o ser vivo. Foi assim que surgiu o mundo.

Continuaram a brincadeira. Mas a aflição de Diego era evidente. Como assim Deus não existe? Tudo tem que ter um início. Nada pode vir do nada.

Foi quando caiu a ficha para Diego. Era nítido que havia encontrado a solução. Seu semblante mudara. A serenidade de sempre havia voltado ao seu lugar. No seu tom tranqüilo, Diego interrompe a luta e pergunta:

-Miguel, de onde você acha que veio a bola de fogo grande?
-Ah, num sei.
-Foi Deus, viu!

E esta é mais uma de uma série de constatações da minha teoria de que por trás do equilíbrio há sempre muito rigor. Diego até hoje é um sujeito cartesiano.

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