Autor: João Sanches
Primeiro foi a limpeza espiritual: banho de folha, ebó para abrir os caminhos, resguardo, branco durante uma semana. Estava pronta pra ir pro Rio.
A chegada maravilhosa, os amigos no aeroporto, as ruas largas, que cidade linda, muitos caminhos. Todo abertos, garantia do pai de santo.
Uma semana e nada. Os amigos ocupados, a roupa arrumada no armário, já conhecia a galera do apartamento, mas nenhum contato.
- Aqui só tem trabalho pra quem tem contato. Foi informada pelo colega mineiro.
Um ano e nada. Nenhum contato. Onde é que eles moram? Uma atriz baiana com o talento trancado num quarto em Copacabana. Vamos fazer alguma coisa. Currículo em todos os lugares. Eu não vou produzir, sou atriz. Pensava.
Um ano, uma semana e nada.
- Você tem que produzir a sua peça.
- Mas eu não tenho dinheiro.
- Ninguém tem.
Um ano e meio e nada. Ligou pro pai de santo.
- Tenha calma, minha filha. Quer dinheiro emprestado?
O telefone toca. O currículo. Um teste. Não passou, mas o diretor adorou. Um contato, pelo menos. E assim foi. Alguns telefonemas com o passar dos meses e nada. Apenas testes.
Dois anos. A situação gravíssima, começou a trabalhar num bar, um contato. Precisava pagar as contas, mas não ia produzir. Era atriz e pronto. Não ia produzir. Mas o bar... Ela estava cada vez mais distante da sua sonhada carreira de atriz. Chegou o limite. Chegou o desespero.
- Preciso do meu pai de santo.
- Sem condição. Ele não atende pelo telefone. Mas eu conheço uma pessoa. Sua amiga sugeriu.
D. Benta era baiana legítima, nascida no recôncavo, berço do ancestral Axé brasileiro. Descreveu a vida da atriz como nem sua amiga íntima faria. Só isso já valia a sessão. Mas jogou os búzios e teve o diagnóstico.
- Minha filha, você quer um contato, né?
- É tudo que eu quero nessa vida.
- Mas você não tá achando, né?
- Onde encontro, minha mãe?
- Minha filha, contato não se acha. Se faz.
- E aí, minha mãe?
- Você tem que produzir.
Veio a iluminação. A atriz saiu felicíssima. Ia produzir. Não ia mais ser testada, ia testar. Nada de ser contratada, ia contratar. Nada de esperar por convite, convidar. Autor, diretor, colegas, ia produzir a sua peça. Saiu felicíssima. Não fazia a mínima idéia de como produzir, mas ia. Produzir.
E pensou em aceitar o dinheiro emprestado do seu pai de santo.
terça-feira, 15 de abril de 2008
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