quarta-feira, 9 de abril de 2008

Texto da Paula

Autora: Paula Santos

Sempre saía da aula quinze minutos mais cedo. Meu almoço era um sanduíche no ônibus, o que invariavelmente me fazia chegar na redação e ir direto ao banheiro limpar a blusa. E não adiantava o guardanapo no colo, já que o tomate insistia em pingar cada dia num lugar diferente.

Chegava sempre ofegante, e não era exatamente pela pressa. O nervosismo me deixava com pouco ar. Procurava um computador que pudesse chamar de meu, pelo menos durante aquele dia. Quanto mais cedo chegasse, maiores as chances. Só havia três computadores para os estagiários, que infelizmente éramos 4.

Enquanto meu corpo se acomodava à cadeira de rodinhas e meus ouvidos à constante de vozes e teclados sobrepostos, checava meus emails. O endereço eletrônico - meunome@onomedojornal.com - era a confortável prova cabal de que eu não havia descido do elevador no andar errado. Diariamente uma torrente de mensagens chegava naquele endereço, e qualquer zé ninguém se sentiria peça essencial no funcionamento da cidade frente 'aquela tela.

Esconder minha condição de estagiária era regra de etiqueta no relacionamento com os entrevistados. Me sentia uma espiã russa frente a um agente da CIA. A qualquer momento descobririam que eu era uma fraude. Simulava o diálogo em voz alta e só depois de repassá-lo em 3 versões diferentes juntava coragem e telefonava.

Um dia cheguei mais tarde por conta de uma prova na faculdade. Sentei-me num computador e em meia hora comecei a ser acusada.
"Você roubou meu computador"- bradou a estagiária-modelo.

A estagiária-modelo chegava mais cedo e saía mais tarde. Fazia as obrigações da sua editoria e se oferecia para ajudar as outras. Adorava dar plantões nos finais de semana. E apesar de ter sido escalada para trabalhar no Natal, ofereceu-se também para o Réveillon, porque achou emocionante a idéia estar no Batalhão de Polícia enquanto espocavam os fogos em Copacabana . Se dava super-bem com a sua chefe e com a minha, com quem aliás havia acabado de almoçar. Eu nunca tinha almoçado com a minha chefe.

Rapidamente me justifiquei: o computador estava vazio, e eu também precisava trabalhar. Ela começou a argumentar alto, de modo que a sua chefe e a minha se aproximaram. Clamava pelo seu direito de terminar a matéria no computador onde havia começado. Com o apoio das chefes, ela ganhou razão. Eu fui hierarquicamente obrigada a me levantar e moralmente obrigada e pedir desculpas e abrir um sorriso. Devastada, comecei a vagar pela redação a procura de abrigo.

Fui acolhida pela ala dos colunistas sociais, já que um deles estava de férias. Era obrigada a escrever uma notinha a cada dois dias para pagar o uso do computador, sobre a suspeita de que fulana havia feito plástica ou o fulano da novela que estava internado com hemorróidas. Mas minha vida melhorou muito. Longe daqueles mártires do jornalismo, encontrei pessoas que me ofereciam chicletes sem açúcar, me convidavam para almoçar no vegetariano e ainda elogiavam meus textos.

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