Dois quartos, sala espaçosa, um banheiro, vista pro mar. Estava escrito vista pro mar.
- O proprietário entrega a chave em um mês. É só a senhora?
- E não é o suficiente?
Entrei exatos 30 dias depois.
Ele estava lá, me esperando: imenso, infinito, possível. Eu tinha conseguido, então, depois de tudo.
E mesmo tão longe podia ouví-los sussurrar seus demônios nas minhas costas, nas minhas entranhas. Eles ficariam doentes com a minha vitória. Ela, coitada, morreria.
“Soube da Lucélia? Está morando de vista pro mar.”
Isso mesmo, senhoras e senhores, e no Rio de Janeiro. Eu sempre soube que não era de lá.
“A Lucélia não tem jeito. Essa não vai casar nunca.”
Grandes merdas, casamento. E filho, fralda, família, deus me livre. Como se eu precisasse de mais algum motivo pra ser infeliz.
“Sai com ele, Lucélia. Menino bom, estudioso, ainda vai ficar rico. Escuta o que eu te digo: ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro, como eu sempre sonhei pras minhas filhas.”
Só que ele já era diferente. Qualquer um podia ver. Qualquer um, menos ela.
“Bate na boca, menina. Desse jeito você morre sozinha.”
Oito anos de namoro e nada. Ele nunca encostou em mim.
“Xuxu, esse é o Ronaldo, meu parceiro do tênis. Xuxu, esse é o Patrick, meu parceiro da sinuca. Xuxu, esse é o Tomás, meu amigo que eu te falei lá da clínica.”
Me desculpe, “xuxu”, mas eu não estou interessada em saber pra quem você dá ou deixa de dar o rabo.
“Lucélia como você pode pensar isso do Pedro Augusto? Imagina se os pais dele descobrem.”
Era essa sua preocupação, mamãezinha? Sua filha podia casar com um veado e ser infeliz pra sempre, desde que ninguém soubesse. Pra puta que pariu.
“Se você contar pra alguém, nunca mais põe o pé nessa casa.“
Como é bom ser expulso do inferno. Meus sinceros agradecimentos aos meus pais, tios, primos e a todos os curiosos da pequena e fantástica Cachoeiro de Itapemirim.
“Você nem merece ser feliz, menina. Destruir uma família desse jeito. Sabia que os pais tiraram o garoto de casa? E a carreira dele, já pensou?”
Eu salvei a vida do Pedro Augusto. Salvei mesmo. Agora ele pode estar com todos que quiser, em qualquer lugar do mundo. E qualquer lugar do mundo, meus queridos, é melhor que aquilo lá.
“Ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro.”
Dizem que maresia estraga tudo, mas essa janela não fecho nunca.
Nesse ponto você tinha razão, mamãe. Isso aqui é a coisa mais linda que existe.
por
Patrícia Lopes
quinta-feira, 17 de abril de 2008
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