quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dona Zezé

Autora: Patrícia Lopes

- Prometem que não vão contar para ninguém?
Era sempre assim que ela começava as histórias, as melhores histórias que já ouvi. Nem ler ela sabia. "Tá tudo aqui, ó.", falava, apontando para a cabeça, num gesto todo dela. E estava mesmo.
Tinha história de quando ela era passista da Mangueira e quase fez um deputado largar família e tudo.
Tinha história triste, do avô dela que era escravo na Bahia.
- Escravo igual na novela, Dona Zezé?
- Igualzinho – respondia, deixando a gente assustado e muito orgulhoso de saber uma coisa tão importante.
- Prometem que não vão contar pra ninguém?
Jurávamos que não, na hora, claro que não. E não contávamos mesmo. O que a gente mais gostava era isso. Só nós 3 tínhamos a chave secreta daquele tesouro, daquelas relíquias que eram as histórias da Zezé.
- Vocês sabiam que eu tive 14 irmãos?
E a gente ria, não era possível. E ela falava o nome de um por um. Nossos olhos arregalavam e passávamos a semana cochichando aquilo.
Um dia mamãe chegou muito séria, séria demais para quem vai falar com as crianças. Dona Zezé não ia mais voltar. Mamãe explicou que a culpa era do coração dela, que era muito fraco. A gente achou aquilo um absurdo, se tinha uma coisa que era forte na Dona Zezé era o coração.
-Ela não volta nunca mais?
Entramos no quarto revoltados: como a Zezé podia nos deixar assim? Quanta coisa a gente estava perdendo, quanta coisa ia perder?
- E quando a Zezé veio do nordeste sem ter onde ficar e dormiu um mês inteiro na praia?
- E quando ela fugiu da roça pra ficar com um marinheiro?
- E nem marinheiro de verdade ele era! O uniforme era roubado!
Foi assim que ela voltou pra gente, no contar e recontar daquilo tudo, até hoje. E agora eu conto pras crianças, que não acreditam em como eu posso saber tanta história.
- Tá tudo aqui, ó - Explico pra elas, que adoram a Zezé como se ela ainda morasse na nossa casa.

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