terça-feira, 15 de abril de 2008

A BOLSA

Autor: João Sanches

Era uma oportunidade única. Um curso com ela, a sua escritora favorita. Um curso raro, uma oportunidade rara, uma rara escritora. Tinha que fazer.
- Você já viu o preço?
Dois dias de oficina, um preço simbólico para uma experiência imensurável. Mas pesado para o momento daquele jovem escritor.
- Tinha que ter um problema.
- Pede uma bolsa.
- Pra quem?
- Pra professora.
- E questionar o valor do curso? Essa oportunidade não tem preço.
- Tem. E você não pode pagar.
- Eu tenho que me lascar e arranjar o dinheiro.
- Então se lasque.
Não, não ia pedir uma bolsa. Não era justo com a sua escritora favorita, logo ele, um admirador tão declarado. E quem disse que ela daria uma bolsa pra ele? Por quê? Nem sequer o conhecia. Lembrou do cartão de crédito. Já tinha tomado uma cerveja na casa onde aconteceria o curso, eles aceitam cartão. Era só ligar. Mas tinha que ter um problema.
- Eu não vou perguntar se eles aceitam cartão.
- Mas você não quer saber?
- Eles vão achar que estou pechinchando, uma ofensa, meu Deus do Céu! O que é que eu faço?
- Você não tem uma amiga que trabalha lá?
E-mail. A tecnologia é uma Deusa generosa para quem tem acesso ao seu condomínio fechado. Ele tinha internet. Mandou um e-mail para amiga perguntando sobre o cartão. A amiga baiana entrou na história para resolver o conflito essencial. Respondeu ao e-mail dizendo que havia pedido uma bolsa para ele. A escritora concordou. Meu Deus do Céu!
- Que vergonha, todo mundo vai saber que eu sou o aluno da bolsa! Ou, pelo menos, ela – o que é pior!
- Não adianta insistir. Você não tem um problema, Gustavo. Seu amigo foi pra casa.
Que vergonha, que culpa, que loucura, uma bolsa! Como é que eu vou retribuir? Como é que eu vou justificar? Como é que vou? Agora tenho que ser um aluno exemplar, tenho que participar, tenho que... Será que ela vai pedir pra gente escrever lá?? Desespero.
- Eu não vou pro curso. Ligou pro seu amigo.
- Eu realmente não tenho como te ajudar, Gustavo.
Dois dias de sofrimento e Gustavo foi. Chegou no curso tenso, segurando a onda. Os alunos lá, possivelmente escritores conhecidos, reconhecidos, profissionais e pagantes integrais daquele valor tão pequeno. Para eles. Que vergonha. Segura onda, Gustavo. Você já está aqui, pensava.
E num segundo já estava ali também ela, a escritora. Um mulher alta, exuberante, bonita, portando sua imensa bolsa vermelha, seus óculos pretos moderníssimos, saltos altos como seus vôos literários. Vamos começar. Que experiência! A aula, as considerações, as dicas, a visão apaixonada dela, simples, humana, aquele contato extrapolava qualquer expectativa. Ela não era apenas talentosa – era fina, elegante e sincera. Como na música. Mais do que isso, era uma pessoa capaz de tocar, capaz de despertar o melhor em cada um dos presentes.
No momento em que Gustavo fazia essa reflexão, a escritora falou:
- Agora, vamos escrever.
Tinha que ter um problema. Sem pressão, vamos tentar. Uma idéia, preciso de uma idéia. Dez minutos. Ai, a bolsa. Tenho que escrever alguma coisa. E boa. Trinta minutos. Não precisa ser boa. Tenho que escrever qualquer coisa ou ela vai se perguntar o que estou fazendo aqui. Uma hora. Uma aluna, escritora famosa com certeza, apresentou sua crônica “A idéia fugiu”. Que inveja, por que eu não tive essa idéia? Duas horas. A professora se manifestou:
- Vamos finalizando? Quem quiser, pode ler. Quem não quiser, pode terminar em casa e trazer amanhã.
Terminar o quê? A idéia fugiu! Cacete... Esquece, essa não vale.
Vexame. Nem uma linha. Nenhuma idéia. Prometeu que amanhã traria sua crônica. Mais um problema. Acabou a aula. Foi o primeiro a sair, cabeça baixa, um rápido tchau para escritora que esperava sua carona na porta. Não conseguiu mirá-la nos olhos. Seguiu. Perto de casa, pensou em ligar pro seu amigo. Ele iria atender. Cadê o celular? Aqueles dias estavam mesmo complicados.
Voltou à casa onde curso acontecia e a encontrou fechada. Tocou na campainha. Nada. Ninguém. Respirou fundo. Ia ter que ler o horóscopo semanal, tinha alguma coisa errada com ele. Virou-se para ir embora. Deixa pra lá. Mas avistou nesse momento uma bolsa vermelha. Deteve-se. Olhou fixamente. Em cima do parapeito, onde a escritora estava quando ele saiu. Ali, silenciosa, indefesa, esquecida. Abriu a bolsa. Cheia de notas, alguns cheques e uma lista. Pegou a lista. Muitos nomes, o seu não estava lá. Teve certeza. Era a bolsa da escritora.
Devolveu orgulhoso. Enquanto pensava, essa mulher não existe, é ficção. Duas bolsas e uma idéia. Salvo três vezes. Ela sabe resolver conflitos.
- Sim, mas e a crônica? Será que vale contar essa história?
- Não adianta insistir. Você não tem um problema, Gustavo.

Um comentário:

lilian lovisi disse...

Ei joão, que belo registro. Estou encantada até agora também.