Autor: Flavio Salles
Meus pequenos passageiros,
Chegamos ao aeroporto em São Paulo e nos dirigimos ao balcão do check-in. Papai colocou vocês dois no balcão para pegar os documentos. Que dizer, na verdade, sempre faço isso. Aliás, acho que todos os pais que viajam com seus filhos pequenos adoram colocá-los em cima do balcão de check-in, só para exibirem seus pimpolhos.
E ai do pobre do atendente que não perguntar o nome da criança, mesmo que esteja em mãos com a certidão, identidade, cartão de embarque, etc. Imagine, então, se por um descuido não pronunciar nenhuma frase do tipo: “Como ela é fofinha! Como ele é esperto! Eles já falam tudo!”
Bom, a mocinha que nos atendia falou todas as frases do script e nos colocou sentados na primeira fileira. Só que a Mamãe, a Sheila e o Pedro, na 1A e 1B, e o Papai e a Marina na 1 L, do outro lado do corredor. Ela explicou:
- Devido às normas de segurança, não é permitido duas crianças de colo viajarem do mesmo lado da aeronave, senhor. Encerrado o atendimento, ela entregou os bilhetes e, com um sorrisinho maroto, prenunciou, Esta primeira fila vai ser animada.
Não entendi, mas agradeci educadamente.
Quando entramos no avião, me deparo com os meus companheiros de fileira. Dois meninos, dos seus oito, nove anos, praticamente deitados nos seus assentos, com as pernas para o alto e os pés sobre as mesinhas de lanche. A atendente, o sorrisinho, tudo fazia sentido.
Pedi licença, eles baixaram suas pernas e sentei na minha cadeira, ao lado da janela, com a Marina no colo.
- Que fofinha! Quantos anos ela tem? o menino ao meu lado perguntou.
- Dois, eu respondi.
- Eu tenho oito. Meu irmão tem dez. Nossa, ela é grande. Ela já tem um metro?
- Ainda não.
- Cinquenta centímetros? Sessenta?
- Oitenta e quatro, respondi sem pensar muito.
- Como é o nome dela?
- Marina.
- Que fofinha!
- O meu é Rafael.
Os dois cochicharam algo que não entendi e o meu vizinho perguntou com um tom preocupado.
- Ela tem medo de avião? Chora muito?
- Não.
- Que bom. Quando a gente veio, tinham dois bebês que choravam muito, mas eles eram pequenininhos. Quantas vezes ela já viajou de avião?
- Cinco.
- Papai! Quero ir para o colo do Papai! o Pedro começou a gritar do outro lado do corredor. Ouvi a Mamãe explicar que ele tinha que ficar sentado até o avião decolar.
- Aquele lá também é seu filho?
- É.
- Quantos anos ele tem?
- Dois.
- E ela?
- Dois.
( 15 segundos de reflexão)
- Ah, são gêmeos. Os bebezinhos que vieram no outro vôo também eram gêmeos. Como é o nome do seu filho?
- Pedro.
Nisso, o da ponta, que não havia aberto a boca até então, falou:
- O meu nome também é Pedro. Antônio Pedro.
- Que legal.
O avião começou a taxiar e a conversa seguiu animada.
- Quando você tinha oito anos você já calçava o tênis da sua mãe?
- Não me lembro.
- Eu já calço. Quer dizer, falta um dedo, falou o menino apertando a ponta do sapato e me mostrando o dedão. Com quantos anos você calçou o tênis da sua mãe?
- Não me lembro.
- Nove? Dez?
Percebi que aquela pergunta não podia ficar sem resposta. Nove, respondi convicto.
O avião decolou e tirei da mochila uma bolinha cheia de ventosas, que tínhamos comprado na 25 de março, e entreguei para a Marina. Em pouco tempo já estava organizado um torneio de quem acertava a janela do avião. Turno e returno.
- Agora a Marina! Agora o Rafael! Agora o Antônio Pedro!
Marina se divertindo horrores.
- Quando ela faz aniversário?
- Quatro de maio.
- Caramba, eu faço dia sete de maio. Eu, meu pai e minha tia. Tem mais uma tia da minha madrasta que faz em maio e mais um monte de gente que eu nem conheço.
- Puxa!
Nisso, o calado vira-se para mim e pergunta:
- Quando é seu aniversário?
- Quatro de março.
- E da sua mulher?
- Três de abril.
- Faço dia 15 de julho, ele fala um pouco desolado. Você conhece alguém que faça em julho?
- Não, não conheço.
- Eu também não conheço ninguém que faça no meu mês, ele falou e voltou a ficar calado.
- Ah! Me lembrei! Eu conheço uma pessoa que faz no dia 15 de Julho!
- Quem? ele perguntou desconfiado.
- Uma amiga.
- E ela é legal?
- Muuuuuuito legal.
- Que legal! ele respondeu com um sorriso no rosto.
Aos poucos fui me afeiçoando àqueles meninos inquisidores. Mas, àquela altura, acreditava estarem esgotando os fatos interessantes que eles ainda não sabiam sobre minha vida.
- Qual o seu carro?
- Um Honda Fit. Cinza, 2006, câmbio manual, completei de uma vez.
- E o carro da sua mulher?
O garoto era realmente imbatível.
- A gente só tem um.
- Na casa da minha mãe também só tem um carro.
- Onde vocês moram?
- Na Tijuca. Mas meu pai mora numa cobertura aqui em São Paulo e tem quatro carros.
- Puxa! O que seu pai faz?
- Ele é... ele é. Aí se vira para o irmão e pergunta:
- Antônio Pedro, o que o papai faz?
Depois de pensar, gaguejar um pouco, o garoto responde:
- Ele é fiscal.
- Ah, tá.
Aproveitando que o assunto estava sério, ele continuo o inquérito:
- Você acha o Lula um bom prefeito?
- Não, eu não acho que ele é um bom presidente.
- Eu também não. Dizem que ele rouba.
- É, dizem sim.
- E você, o que você faz?
- Eu tenho uma empresa de comunicação.
Alguns segundos se passaram até que aquela informação fosse decodificada. Então, os olhos dos dois meninos se arregalaram e eles perguntaram quase que uníssonos:
- VOCÊ É O CHEFE?
Meio desconcertado, respondi:
- Eu e minha mulher.
- Você trabalha com sua mulher? Que legal! E o que vocês fazem?
- Sites, poupando-os de detalhes nada importantes, já que naquele momento estava certo de ter o melhor emprego que alguém poderia almejar.
- Tipo o Google?
(Silêncio de 15 segundos)
- É...mais ou menos.
- Quantas pessoas tem na sua empresa?
- Nove.
- Nove? Mas de que tamanho ela é? Do tamanho desse avião?
(Silêncio de 25 segundos)
- Bom, se tirar as asas, a cabine, da fileira 17 em diante...
Vendo o brilho inicial de admiração começar a fugir do olhar daquelas insaciáveis criaturas, fiquei feliz que a aeromoça chegou trazendo o serviço de bordo.
Cada um ganhou uma caixinha plástica com dois sanduíches. Eu ganhei duas, pois estava com a Marina no colo. Percebi de soslaio um olhar de cobiça do meu vizinho. Mas não durou muito tempo. Ele devorou o primeiro sanduíche em 3 mordidas e, antes de terminar o segundo, solicitou educadamente para a aeromoça:
- Moça, você pode me trazer mais um?
EM seguida, virou-se para mim e confidenciou:
- Eu adoro a Varig. O lanchinho é bem melhor.
- Vocês viajam sempre para ver seu pai? perguntei.
- A gente se vê de quinze em quinze dias. Uma vez ele vai, na outra, a gente vem.
- Eles são separados há muito tempo?
- Desde que eu tinha três anos de idade. O meu irmão tinha cinco.
- Seus pais se casaram de novo?
- Meu pai casou, minha mãe não.
Fiquei em silêncio por alguns instantes e comecei a contar, sem ele me perguntar nada:
- Quando meus pais se separaram, eu também tinha três anos. Meu irmão tinha seis. Meu pai também morava em São Paulo e minha mãe no Rio e eu tinha que vir visitá-lo. Meu pai casou de novo, minha mãe não.
- É muito chato, né? ele falou pra mim, olhando para baixo.
O que eu podia responder para ele? Só me veio uma coisa:
- É. É muito chato.
Olhei pela janela. Pensei que aquela frase, que pra ele tinha talvez cinco anos de idade, para mim, significava uma infância, uma adolescência, não sei quanto tempo. Lembrei de quantas vezes eu fui aquele menino gordinho, viajando de São Paulo para o Rio, com o meu irmão calado ao meu lado, em um avião da Varig, da FAB, de ônibus ou de trem. Ah, e claro, repetindo o lanchinho da Varig.
Desejei que pra ele não fosse tão chato, quanto foi pra mim.
A aeromoça anunciou o início do procedimento de aterrissagem. Fui narrando para Marina o que via pela janela:
- Olha, filha, o Maracanã.
- O jogo do Flamengo já terminou? Quanto foi? o garoto queria saber.
- Olha, Marina, a estátua do papai do céu.
- Cadê? Você já foi no Cristo Redentor? Eu já fui uma vez.
- Vamos pousar, filha.
- Essa hora eu tenho medo.
- Chegamos.
- Foi rápido, né?
Na hora de se despedir, ele falou:
- Seus filhos são fofinhos e muito bem educados. Ah, e são lindos também.
Na boca daquele menino aquelas frase ganhavam um sentido bem diferente.
- Até um dia, ele se despediu.
Na saída do avião, uma aeromoça se aproxima da porta e pergunta:
- Quem são os menores desacompanhados?
Senti por um momento um orgulho infantil, o mesmo que senti tantas vezes em que me preparei para responder àquela mesma pergunta, na porta de tantos aviões. Mas antes que pudesse levantar o braço, o comissário de bordo atrás de mim respondeu:
- São estes dois.
Olhei para trás, peguei a mão da Marina e acenei para eles.
- Até um dia, Rafael. Até um dia, Antônio Pedro.
Beijos do Capitão Papai
Este texto faz parte do blog que escrevo para os meus filhos: www.emotivo.com.br/marinaepedro/sh/livro_bebe.asp
sábado, 19 de abril de 2008
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