quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Para ler como um escritor

Gente,
Estou sem tempo de escrever por aqui, mas aqui vai uma dica de um livro que falar sobre o procesos da escrita. Tem uns toques bem legais:
Para ler como um escritor, Francine Prose
http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=1089

terça-feira, 30 de setembro de 2008

SOS ou pode-se ler Sós

AMIGOS DE CANETA, LÁPIS E TECLAS DE COMPUTADOR


ESTAMOS DESAPARECENDO... TEMOS QUE VOLTAR A ESCREVER AQUI ....

AFINAL, POR QUE ENTÃO FIZEMOS este blog?

vou enviar email pra vocês precisamos fazer alguma coisa

domingo, 24 de agosto de 2008

ONDE ANDA A LETRA DE VOCÊS?

A minha anda em algum lugar da palavra S A U D A D E S.
Ei turma, vamos se falar?

beijos a quem ainda abrir este blog.
lilian

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Prostituta, não com todas as letras.

Impostora: lilian lovisi



Ela era uma mulher da vida. Da boa vida. Passava a manhã inteira dormindo, de tarde fazia o que mais lhe dava prazer: escrevia, escrevia contos, crônicas, histórias, peças de teatro, cartas, e-mails, escrevia, escrevia, escrevia. Era o que mais gostava de fazer. À noite, trabalhava com uma coisa que dava prazer aos homens e não a ela. E assim ia levando a vida. Bonita, solteira e letrada. Ela escrevia por amor e trepava por dinheiro.
Um dia, caiu na indiscrição de revelar a um cliente mais assíduo que escrevia.
– Deixe-me ver – ele pediu se recostando na cama.
Ela ficou meio sem graça, um sentimento de vergonha subiu pelas faces, ficando completamente vermelha.
– Mostrar pra você, assim, sem mais nem menos?
– Como sem mais nem menos? Me mostra agora, aproveita que eu tô aqui e sou um jornalista. Já critiquei muitos livros, tenho capacidade para avaliar se você leva jeito ou não pra escrever. A história não está aí?
– Está, na bolsa.
– Então me mostra.
– Não sei... tenho vergonha… eu nunca mostrei meus textos antes…
– Vergonha? – vociferou o cliente. – Você trepa comigo, chupa meu pau, faz sexo anal, satisfaz minhas fantasias de sadomasoquismo e tem vergonha de me mostrar um texto?
– É que um texto é muito pessoal, é muito íntimo... eu prefiro mostrar a vagina do que mostrar uma vírgula minha.
– Mas… e se você tiver jeito? Quem sabe você não ganha dinheiro com isso, mulher!
– Olha aqui, dinheiro eu ganho fazendo sexo. Não contos. Eu sou uma prostituta, mas não sou uma prostituta da literatura. Não escrevo para que me paguem. Isso eu faço por amor, e nesse ponto sou muito antiga. Não pode ser qualquer um a ver meus textos, a descobrir onde tenho mais reticências ou se uso pontos de exclamação. Isso tem que ser pra alguém especial.
– Mas eu já fui crítico de literatura, fiz críticas pra Veja!
– Ainda não estou pronta. Me leva pra casa?
– Ah, não – ele insistiu. – Eu vou ver seu texto nem que seja na base do estupro.
Dizendo isso, ele abriu a bolsa dela e catou seus textos.
Ela correu atrás dele pelo quarto. Ele peladão e ela peladona, ele chacoalhando o berimbau e ela balançando os peitos perfeitos. Até que ele conseguiu entrar no banheiro e trancou a porta.
– Abre, me deixa entrar! – gritou ela.
– Cala a boca, deixa eu ler.
– Não faz isso, eu ainda sou virgem nesse aspecto.
– Pois vai deixar de ser. Estou vendo tudinho: seus pontos, suas vírgulas, estou descobrindo você…
E ela se sentou na porta do banheiro, vermelha, envergonhada com tal situação.
Uma hora depois, ele saiu do banheiro completamente petrificado.
– Desculpe, eu perdi a cabeça…
– E então, o que você achou?
– Ah… agora tá querendo saber, né?
– Diz… ela implorou. – Foi bom pra você? Eu te satisfiz?
Ele a abraçou e disse:
– Me mostra mais. Eu quero umas três seguidas.
E passaram na casa dela para ele olhar seu computador. Nunca ninguém havia ido tão longe com ela.

domingo, 4 de maio de 2008

Carol

Por Adriane Salomão



Atrasada de novo. Nunca consegui entender muito bem as mulheres, mas Carol é demais! Para marcar um cineminha simples, daqueles de tarde de domingo, tenho que mentir e convidá-la para o café da manhã. Assim, talvez, consiga pegar a sessão das nove da noite.
Pior são as histórias que ela me conta. Ela pensa que eu acredito, mas eu não acredito, não e não. Só não termino porque... porque... ora, eu não sei por quê! Talvez porque eu a ache linda, porque me derreta quando vejo aquele sorriso largo, aquele seu modo de ajeitar o decote, de mexer nos cabelos. E faz de propósito! Basta eu fechar a cara que lá vem ela toda rebolativa, ajeita os seios, joga os cabelos e diz bem perto do meu ouvido:
- Que foi? Que foi, docinho? Tá zangadinho, huum?
Ai! Isso me mata! Quando ela faz, sinto uma quentura, me dá uma coisa que, enfim, esqueço-me de tudo. Quando ela faz assim, não tem jeito, agarro em sua cintura, encho-a de beijos até sentir sua pele arrepiada. Aí, é ela quem me abraça e eu...ora eu... quem sou eu? Sou um nada nas mãos dessa mulher, essa é a verdade.
Mas, outro dia, ela me tirou do sério e quase terminei tudo. Faltou um fio, um fio! Era dia dos namorados e tínhamos combinado de ficarmos juntos. Reservei um restaurante bacana para as sete horas, com vela na mesa e tudo. Ela prometeu, jurou que não se atrasaria. Acreditei não acreditando, e não contei do jantar. Falei que era almoço, ao meio-dia. Ela fez que sim olhando nos meus olhos. Fiquei firme. Meio-dia em ponto, Carol! - repeti.
Se ela cumprisse a promessa, executaria o plano B, ou seja, eu a levaria para almoçar, depois sorvete, um cineminha e, por fim, o jantar, bem romântico.
O relógio marcou doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e uma... Nada! Pensei: morreu! Foi seqüestrada, atropelada, pisoteada. Deve estar perdida, deve ter trocado a data. Só pode ser!
Às vinte e uma e um segundo chega ela. Eu, verde de fome, de raiva, de frio, carente, desiludido, o coração nem batia mais. Disse que tinha sido assaltada, perseguida por uma gangue que tentou roubar sua bolsa e que teve que correr muitos quilômetros. Que só conseguiu se livrar dos moleques porque aplicou um dos golpes que aprendeu numa das aulas na academia de ginástica, mais algumas bolsadas para lá e para cá. Aí, começou a chorar, a fazer beicinho, biquinhos. Disse que a culpa era minha, que não a protegia, que não lhe dava atenção e a deixava sozinha. Ainda me chamou de egoísta, obrigando-me a pedir desculpas. No final, acabou tudo bem. Dividimos uns sanduíches de um botequim qualquer e brindamos com cerveja mesmo, fazer o quê?!
Mas suas desculpas ficaram entaladas. No dia seguinte, dei-lhe um gelo. Ela pensava que eu era bobo! Fiz aquela cena toda porque estava frágil e não ia discutir justo no dia dos namorados e fui mesmo, um gelo. Quer dizer, gelo até a hora em que Carol se aproximou, começou a falar que o dia estava lindo, que o céu estava como os meus olhos e chegou mais perto, mais perto e eu comecei a sentir aquele perfume que vinha dela, aqueles olhinhos tão pertinho dos meus. E ela ajeitando os peitinhos... Ai!
Está bem. Em termos de resistência à corte feminina, sou mesmo o fracasso do fracasso, tenho que admitir.
Hoje, mais uma vez, cá estou eu, plantado, esperando...
Será que ela vem? Será que desistiu? Será que encontrou outro, outra, outros, outras? Será que não me quer mais? Olha que dessa vez ela está com um monte de gente em volta, todos recomendadíssimos, muito bem instruídos para que não a deixem se atrasar. Mas está, está atrasada.
Ah, não, não está! Lá vem ela... linda, chegando devagar, um pezinho na frente do outro. Acho que está nervosa, vejo suas mãos tremerem. Nunca a vi tão bonita como hoje. Um véu cobre seu rosto, outro segue seus passos e rendas enfeitam seus seios.
- Sim, aceito, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A QUEDA

Impostora: Lilian Lovisi



Ele já tinha sido perfeito. Não era mais. Fechou os olhos e pensou nos tempos de glória, quando todos o achavam lindo, inclusive ela. Áureos tempos em que era admirado por ela e por eles, quando podia andar solto, livre, displicentemente, sem maiores preocupações. Ele era feliz e não sabia. Agora, os tempos eram outros. Os anos haviam passado, sentia-se judiado por demais, e no momento não restava outra coisa senão a queda. Ela seria rápida, não demoraria mais que alguns segundos. Sairia do topo e chegaria embaixo em milésimos de segundos. E quando chegasse lá embaixo, o que restaria pra ele? Nada, só as lágrimas dela. Enfim, veria as lágrimas dela rolarem por causa dele, veria a cara de indignação de outras pessoas, veria alguém tentando ajudar, tentando fazer alguma coisa para que ele ainda pudesse sobreviver, voltar a ser o que era antes. E talvez não visse nada disso, talvez nem a visse mais, só veria o chão, o asfalto quente, só veria aqueles pentelhos atrevidos a pedirem seu salto no escuro, a gozar daquela situação insustentável pra ele . Talvez visse o traço da cesariana dela, a unha do pé malfeita, e só. Deus do céu, só isso? Nunca mais olhar para as pessoas de frente, nunca mais encarar as pessoas de frente, só andar com a cabeça baixa, humilhada, como se não lhe restasse mais nada. Como se tivesse que carregar para sempre o peso daquele gesto que ele iria fazer agora. Mais cedo ou mais tarde, que fosse agora, já. Fechou os olhos novamente e se atirou. Ao longo do trajeto, foi sentindo o seu próprio peso. Achou que a queda seria mais rápida, mas não foi isso o que aconteceu. Parecia aquela coisa de rever os momentos antes de morrer. Ele reviveu seu passado brilhante, suas idas à praia, suas horas no sol com ela, suas idas a cachoeira, lembrou-se do tempo em que ela ficou grávida e ele ficou grávido junto com ela, chegou a inchar, a ter os mesmos desejos de amamentar. E foi repassando a sua vida. Lembrou-se do primeiro sutiã, lembrou-se do tecido que ela às vezes usava e que roçava muito a sua pele, lembrou o que mais o deixava feliz, o que mais o deixava triste e, pumba, caiu finalmente, estatelado, desanimado, no corpo dela. Foi uma queda de um metro e sessenta e cinco de altura. Agora todos saberiam que ele estava ali. Ela ainda não havia se dado conta, mas iria perceber um dia que ele havia caído bem ali, na frente dela. Ele abriu os olhos pra ver em que mundo se encontrava então, e deu de cara com os benditos pentelhos a lhe dizerem “alô”. E embora ele tenha pensado que os pentelhos o massacrariam, que iriam gargalhar por aquela queda tão abrupta, tão suicida, deu-se conta de que eles pareciam amistosos e preocupados. Acenaram, perguntaram se estava tudo bem, se a queda o tinha machucado em algum ponto.
– Só no fundo do meu coração – disse o peito. – Eu caí, eu saltei de um metro e sessenta e cinco de altura, e agora não tem mais retorno. Já não agüentava mais ficar me equilibrando, sabendo que no próximo segundo poderia cair. Foi melhor assim. Pelo menos, me deu tempo pra pensar, raciocinar. Me deu tempo pra estudar a altura, me deu tempo até pra desejar essa queda.
E mais rápido do que ele esperava, fez amizade com os pentelhos, com os dedos do pé, com o joelho, descobrindo que existia vida após a queda, vida mais inteligente. Alguns meses depois, ficou sabendo por fontes fidedignas que havia mais alguém planejando um suicídio, uma queda: a bunda.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sobre o equilíbrio

Autora: Manuela Dutra

Diego franziu o cenho. Seu mundo acabara de desabar. Miguel praticamente lhe tirara o chão. Como assim não existe? Será que até aquele dia todo mundo vinha mentindo pra ele?

Miguel e Diego tinham a mesma idade. Idade biológica porque em experiência Miguel era muito mais velho. Pais separados – ele cineasta, ela produtora. Por parte de pai, uma irmã mais nova. Pela mãe, três irmãos, um mais velho e dois mais novos, cada um de um marido diferente. Essa situação fazia de Miguel um menino desinibido e esperto. Miguel sabia se virar – tinha traquejo em lidar com as coisas. Por exemplo, Miguel jamais se separava de sua mochila escolar já que nunca tinha certeza da casa em que iria dormir. Se tivesse aula no dia seguinte, sabia que a professora jamais perdoaria a falta do material e, principalmente, do dever de casa.

Me lembro de uma ocasião em que Miguel telefonara para Diego fazendo um convite. Deixara o seguinte recado na secretária eletrônica:

- Alô, Diego, é Miguel. É que hoje minha mãe vai passear com o pai do meu irmão e eu escolhi você para vir brincar. Me liga quando chegar.

O pai do meu irmão. Nunca ensinaram Miguel a chamá-lo de padrasto até porque Miguel tinha um pai presente e de quem ele gostava muito.

Já, Diego... Comparado a Miguel era quase um zen. Sereno, observador e reflexivo. Poucos assuntos o abalavam. Nem mesmo o dever de casa do dia seguinte. E seu universo era bem menor. Pai e mãe casados, uma irmã mais nova e alguns amigos na escola. Nem primos Diego tinha. Ah, sim! Havia os livros, eternos companheiros de Diego. Gostava de brincar de SL com os adultos, “sala de leitura”. Cada um lê um pouco e no final você me conta o que leu e eu te conto o que li.

Mas esse hábito não fazia de Diego um menino mais bem informado. Pelo menos era assim que ele sentia. Miguel vinha sempre com uma novidade quente:

- Aí, Diego, eu saquei minha espada e tchan! Fui para cima de você!
- Mas, graças a Deus, eu consegui pular e a espada não me pegou.
- Que Deus, Diego! Deus não existe. Vou te contar como foi. No início tinha uma bola de fogo grande. Aí veio um monte de explosões, que formaram os planetas e a terra. Depois veio a água, o carbono e o ser vivo. Foi assim que surgiu o mundo.

Continuaram a brincadeira. Mas a aflição de Diego era evidente. Como assim Deus não existe? Tudo tem que ter um início. Nada pode vir do nada.

Foi quando caiu a ficha para Diego. Era nítido que havia encontrado a solução. Seu semblante mudara. A serenidade de sempre havia voltado ao seu lugar. No seu tom tranqüilo, Diego interrompe a luta e pergunta:

-Miguel, de onde você acha que veio a bola de fogo grande?
-Ah, num sei.
-Foi Deus, viu!

E esta é mais uma de uma série de constatações da minha teoria de que por trás do equilíbrio há sempre muito rigor. Diego até hoje é um sujeito cartesiano.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Desejo Consciente

Morra. Morra você e toda sua falta de coragem. Morra sua vida e sua indignidade. Morra você e sua falta de respeito, respeito por tudo, por mim, pelo outro: apenas morra. Quando você agiu não pensou em nada, apenas lutou contra a pessoa errada, armada de ódio, incompreensão, futilidade, descrença e imperdão.

Não quero que você viva. Ouviu bem? NÃO DESEJO A SUA VIDA. Quero que morra, MORRA. De preferência em vida. A dor que causaste a tantos é de uma imemória, de um desalento, de uma causa infundada. Nem o menos nobre, o mais vil seria capaz. Morra. Leve consigo sua descrença, sua falta de fé, sua ira, seu congestionamento, sua irresolução. Não podemos te salvar, ISSO NÃO. Sua salvação vem de olhares pra ti com humildade e desconsolo, em veres em ti um lamento, um nojo.

Cada palavra depõe. Acusa. Olhe suas atitudes e creia, não há mais futuro. Quem vive de passado não colheu, quem vive de futuro já morreu. Eu quero saber quem você é. Alma descabida que me angústia, que me atormenta cada noite que poderia ter sido um descanso. Não. Não te perdôo, te condeno. Que seja se não o mais pobre o mais horrendo, e por suas próprias amarguras sejas tu revestido. Incrédulo, doente de alma doente de corpo, não posso conviver com tua necessidade, como sua vítima. Morra. Enquanto não acabe tudo, sobrevoa. Se liberte, seja mais que uma lepra Seja ti, alma edionda, as vestes de uma nova forma e Esperança. Reconheça que tu fostes mal, não seja mais banal. Acorde e sobreviva, com uma alma mais limpa, embora não te deseje nem aqui nem no oriente, para mim acabou, nem sobrevivente. As notícias são avassaladoras, peço a alguém que me socorra: a errada sou eu.

Adeus.

sábado, 19 de abril de 2008

Ponte Aérea

Autor: Flavio Salles

Meus pequenos passageiros,

Chegamos ao aeroporto em São Paulo e nos dirigimos ao balcão do check-in. Papai colocou vocês dois no balcão para pegar os documentos. Que dizer, na verdade, sempre faço isso. Aliás, acho que todos os pais que viajam com seus filhos pequenos adoram colocá-los em cima do balcão de check-in, só para exibirem seus pimpolhos.

E ai do pobre do atendente que não perguntar o nome da criança, mesmo que esteja em mãos com a certidão, identidade, cartão de embarque, etc. Imagine, então, se por um descuido não pronunciar nenhuma frase do tipo: “Como ela é fofinha! Como ele é esperto! Eles já falam tudo!”
Bom, a mocinha que nos atendia falou todas as frases do script e nos colocou sentados na primeira fileira. Só que a Mamãe, a Sheila e o Pedro, na 1A e 1B, e o Papai e a Marina na 1 L, do outro lado do corredor. Ela explicou:

- Devido às normas de segurança, não é permitido duas crianças de colo viajarem do mesmo lado da aeronave, senhor. Encerrado o atendimento, ela entregou os bilhetes e, com um sorrisinho maroto, prenunciou, Esta primeira fila vai ser animada.

Não entendi, mas agradeci educadamente.

Quando entramos no avião, me deparo com os meus companheiros de fileira. Dois meninos, dos seus oito, nove anos, praticamente deitados nos seus assentos, com as pernas para o alto e os pés sobre as mesinhas de lanche. A atendente, o sorrisinho, tudo fazia sentido.

Pedi licença, eles baixaram suas pernas e sentei na minha cadeira, ao lado da janela, com a Marina no colo.

- Que fofinha! Quantos anos ela tem? o menino ao meu lado perguntou.
- Dois, eu respondi.
- Eu tenho oito. Meu irmão tem dez. Nossa, ela é grande. Ela já tem um metro?
- Ainda não.
- Cinquenta centímetros? Sessenta?
- Oitenta e quatro, respondi sem pensar muito.
- Como é o nome dela?
- Marina.
- Que fofinha!
- O meu é Rafael.

Os dois cochicharam algo que não entendi e o meu vizinho perguntou com um tom preocupado.
- Ela tem medo de avião? Chora muito?
- Não.
- Que bom. Quando a gente veio, tinham dois bebês que choravam muito, mas eles eram pequenininhos. Quantas vezes ela já viajou de avião?
- Cinco.

- Papai! Quero ir para o colo do Papai! o Pedro começou a gritar do outro lado do corredor. Ouvi a Mamãe explicar que ele tinha que ficar sentado até o avião decolar.

- Aquele lá também é seu filho?
- É.
- Quantos anos ele tem?
- Dois.
- E ela?
- Dois.
( 15 segundos de reflexão)
- Ah, são gêmeos. Os bebezinhos que vieram no outro vôo também eram gêmeos. Como é o nome do seu filho?
- Pedro.

Nisso, o da ponta, que não havia aberto a boca até então, falou:
- O meu nome também é Pedro. Antônio Pedro.
- Que legal.

O avião começou a taxiar e a conversa seguiu animada.
- Quando você tinha oito anos você já calçava o tênis da sua mãe?
- Não me lembro.
- Eu já calço. Quer dizer, falta um dedo, falou o menino apertando a ponta do sapato e me mostrando o dedão. Com quantos anos você calçou o tênis da sua mãe?
- Não me lembro.
- Nove? Dez?
Percebi que aquela pergunta não podia ficar sem resposta. Nove, respondi convicto.

O avião decolou e tirei da mochila uma bolinha cheia de ventosas, que tínhamos comprado na 25 de março, e entreguei para a Marina. Em pouco tempo já estava organizado um torneio de quem acertava a janela do avião. Turno e returno.

- Agora a Marina! Agora o Rafael! Agora o Antônio Pedro!

Marina se divertindo horrores.

- Quando ela faz aniversário?
- Quatro de maio.
- Caramba, eu faço dia sete de maio. Eu, meu pai e minha tia. Tem mais uma tia da minha madrasta que faz em maio e mais um monte de gente que eu nem conheço.
- Puxa!
Nisso, o calado vira-se para mim e pergunta:
- Quando é seu aniversário?
- Quatro de março.
- E da sua mulher?
- Três de abril.
- Faço dia 15 de julho, ele fala um pouco desolado. Você conhece alguém que faça em julho?
- Não, não conheço.
- Eu também não conheço ninguém que faça no meu mês, ele falou e voltou a ficar calado.
- Ah! Me lembrei! Eu conheço uma pessoa que faz no dia 15 de Julho!
- Quem? ele perguntou desconfiado.
- Uma amiga.
- E ela é legal?
- Muuuuuuito legal.
- Que legal! ele respondeu com um sorriso no rosto.

Aos poucos fui me afeiçoando àqueles meninos inquisidores. Mas, àquela altura, acreditava estarem esgotando os fatos interessantes que eles ainda não sabiam sobre minha vida.

- Qual o seu carro?
- Um Honda Fit. Cinza, 2006, câmbio manual, completei de uma vez.
- E o carro da sua mulher?
O garoto era realmente imbatível.
- A gente só tem um.
- Na casa da minha mãe também só tem um carro.
- Onde vocês moram?
- Na Tijuca. Mas meu pai mora numa cobertura aqui em São Paulo e tem quatro carros.
- Puxa! O que seu pai faz?
- Ele é... ele é. Aí se vira para o irmão e pergunta:
- Antônio Pedro, o que o papai faz?
Depois de pensar, gaguejar um pouco, o garoto responde:
- Ele é fiscal.
- Ah, tá.

Aproveitando que o assunto estava sério, ele continuo o inquérito:
- Você acha o Lula um bom prefeito?
- Não, eu não acho que ele é um bom presidente.
- Eu também não. Dizem que ele rouba.
- É, dizem sim.
- E você, o que você faz?
- Eu tenho uma empresa de comunicação.

Alguns segundos se passaram até que aquela informação fosse decodificada. Então, os olhos dos dois meninos se arregalaram e eles perguntaram quase que uníssonos:

- VOCÊ É O CHEFE?

Meio desconcertado, respondi:
- Eu e minha mulher.
- Você trabalha com sua mulher? Que legal! E o que vocês fazem?
- Sites, poupando-os de detalhes nada importantes, já que naquele momento estava certo de ter o melhor emprego que alguém poderia almejar.
- Tipo o Google?
(Silêncio de 15 segundos)
- É...mais ou menos.
- Quantas pessoas tem na sua empresa?
- Nove.
- Nove? Mas de que tamanho ela é? Do tamanho desse avião?
(Silêncio de 25 segundos)
- Bom, se tirar as asas, a cabine, da fileira 17 em diante...

Vendo o brilho inicial de admiração começar a fugir do olhar daquelas insaciáveis criaturas, fiquei feliz que a aeromoça chegou trazendo o serviço de bordo.

Cada um ganhou uma caixinha plástica com dois sanduíches. Eu ganhei duas, pois estava com a Marina no colo. Percebi de soslaio um olhar de cobiça do meu vizinho. Mas não durou muito tempo. Ele devorou o primeiro sanduíche em 3 mordidas e, antes de terminar o segundo, solicitou educadamente para a aeromoça:
- Moça, você pode me trazer mais um?
EM seguida, virou-se para mim e confidenciou:
- Eu adoro a Varig. O lanchinho é bem melhor.
- Vocês viajam sempre para ver seu pai? perguntei.
- A gente se vê de quinze em quinze dias. Uma vez ele vai, na outra, a gente vem.
- Eles são separados há muito tempo?
- Desde que eu tinha três anos de idade. O meu irmão tinha cinco.
- Seus pais se casaram de novo?
- Meu pai casou, minha mãe não.

Fiquei em silêncio por alguns instantes e comecei a contar, sem ele me perguntar nada:
- Quando meus pais se separaram, eu também tinha três anos. Meu irmão tinha seis. Meu pai também morava em São Paulo e minha mãe no Rio e eu tinha que vir visitá-lo. Meu pai casou de novo, minha mãe não.
- É muito chato, né? ele falou pra mim, olhando para baixo.
O que eu podia responder para ele? Só me veio uma coisa:
- É. É muito chato.

Olhei pela janela. Pensei que aquela frase, que pra ele tinha talvez cinco anos de idade, para mim, significava uma infância, uma adolescência, não sei quanto tempo. Lembrei de quantas vezes eu fui aquele menino gordinho, viajando de São Paulo para o Rio, com o meu irmão calado ao meu lado, em um avião da Varig, da FAB, de ônibus ou de trem. Ah, e claro, repetindo o lanchinho da Varig.

Desejei que pra ele não fosse tão chato, quanto foi pra mim.

A aeromoça anunciou o início do procedimento de aterrissagem. Fui narrando para Marina o que via pela janela:
- Olha, filha, o Maracanã.
- O jogo do Flamengo já terminou? Quanto foi? o garoto queria saber.
- Olha, Marina, a estátua do papai do céu.
- Cadê? Você já foi no Cristo Redentor? Eu já fui uma vez.
- Vamos pousar, filha.
- Essa hora eu tenho medo.
- Chegamos.
- Foi rápido, né?

Na hora de se despedir, ele falou:
- Seus filhos são fofinhos e muito bem educados. Ah, e são lindos também.
Na boca daquele menino aquelas frase ganhavam um sentido bem diferente.

- Até um dia, ele se despediu.

Na saída do avião, uma aeromoça se aproxima da porta e pergunta:
- Quem são os menores desacompanhados?
Senti por um momento um orgulho infantil, o mesmo que senti tantas vezes em que me preparei para responder àquela mesma pergunta, na porta de tantos aviões. Mas antes que pudesse levantar o braço, o comissário de bordo atrás de mim respondeu:
- São estes dois.
Olhei para trás, peguei a mão da Marina e acenei para eles.
- Até um dia, Rafael. Até um dia, Antônio Pedro.

Beijos do Capitão Papai

Este texto faz parte do blog que escrevo para os meus filhos: www.emotivo.com.br/marinaepedro/sh/livro_bebe.asp

sexta-feira, 18 de abril de 2008

ALÔ, LEITOR.

Impostora: Lilian Lovisi



-Alô, aí é do Todos os Escritores Merecem o Céu?
-Sim, o senhor é escritor?
-Pois é, esta é a questão, estou na dúvida, um escritor não precisa de leitor?
-Um minutinho só por favor...
Tam nan nan nan nan ( musiquinha)
-Pronto, pode falar, qual era a dúvida?
-O escritor não precisa de um leitor?
-Claro, claro que sim, todo o leitor tem o escritor que merece.
-O vice versa é verdadeiro?
-Como assim?
-E todo escritor, tem o leitor que merece? Quer dizer, se o meu leitor gostar apenas de revista em quadrinhos? Ou apenas de textos de propaganda? Ou pior, só bula de remédios?
-Que tipo de escritor você é? Aquele com complexo de inferioridade?
-Escuta, é o seguinte, eu gostaria de pedir um serviço especial. Não sei se vocês aí são capazes de tanto.
- Senhor, nós aqui de Todos os Escritores Merecem o Céu fazemos tudo para agradar nossos escritores. Até arrumar leitores para eles.
-Você tocou no ponto. Primeiro eu gostaria de saber se tenho um leitor, depois que tipo de leitor é o meu e gostaria de um minuto na cabeça dele, logo que acabasse de ler meu texto.
-Escuta, este negócio de entrar na cabeça dele não é um roteiro de cinema?
Tres dias depois:

Trim, tririm…
-Alô.
-Aqui é de Todos os Escritores Merecem o Céu. Foi o senhor que pediu um serviço especial, um minuto na cabeça de seu leitor, se o tivesse?
-Sim, o senhor conseguiu?
-Aguarde na linha. Recebemos seu texto e o enviamos para diversos meios de comunicação. O senhor conseguiu uma leitora que neste exato momento está lendo o seu texto e faltam poucos segundos para ela terminar. Prepare-se para entrar na cabeça dela durante um minuto.
-Epa, espera, espera, você acha que ela está gostando? Eu estou agradando?
-O senhor verá com os olhos dela.
-Aonde ela está, aonde ela está? Sentada, deitada, fazendo as unhas, fazendo esteira, numa rede embaixo de um coqueiro? Num vaso sanitário?
-Preparado? Vamos começar a contagem regressiva. O senhor tem relógio que marca minuto?
-Tenho.
-Só pedimos cuidado para o senhor ter consciencia que está na cabeça dela e precisa voltar depois de um minuto. Outra coisa: será cobrada uma taxa com fins filantrópicos para o Hospital dos Neurônios Queimados, o senhor tambem estará colaborando para alimentar milhões de neurônios famintos se concordar.
-Certo, concordo, claro,ai que medo.
-Ela está terminando a leitura, chegando na última linha. Daqui a quatro segundos, atenção, quatro, três... dois , um. Foi.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Maresia

Dois quartos, sala espaçosa, um banheiro, vista pro mar. Estava escrito vista pro mar.

- O proprietário entrega a chave em um mês. É só a senhora?

- E não é o suficiente?

Entrei exatos 30 dias depois.

Ele estava lá, me esperando: imenso, infinito, possível. Eu tinha conseguido, então, depois de tudo.

E mesmo tão longe podia ouví-los sussurrar seus demônios nas minhas costas, nas minhas entranhas. Eles ficariam doentes com a minha vitória. Ela, coitada, morreria.

“Soube da Lucélia? Está morando de vista pro mar.”

Isso mesmo, senhoras e senhores, e no Rio de Janeiro. Eu sempre soube que não era de lá.

“A Lucélia não tem jeito. Essa não vai casar nunca.”

Grandes merdas, casamento. E filho, fralda, família, deus me livre. Como se eu precisasse de mais algum motivo pra ser infeliz.

“Sai com ele, Lucélia. Menino bom, estudioso, ainda vai ficar rico. Escuta o que eu te digo: ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro, como eu sempre sonhei pras minhas filhas.”

Só que ele já era diferente. Qualquer um podia ver. Qualquer um, menos ela.

“Bate na boca, menina. Desse jeito você morre sozinha.”

Oito anos de namoro e nada. Ele nunca encostou em mim.

“Xuxu, esse é o Ronaldo, meu parceiro do tênis. Xuxu, esse é o Patrick, meu parceiro da sinuca. Xuxu, esse é o Tomás, meu amigo que eu te falei lá da clínica.”

Me desculpe, “xuxu”, mas eu não estou interessada em saber pra quem você dá ou deixa de dar o rabo.

“Lucélia como você pode pensar isso do Pedro Augusto? Imagina se os pais dele descobrem.”

Era essa sua preocupação, mamãezinha? Sua filha podia casar com um veado e ser infeliz pra sempre, desde que ninguém soubesse. Pra puta que pariu.

“Se você contar pra alguém, nunca mais põe o pé nessa casa.“

Como é bom ser expulso do inferno. Meus sinceros agradecimentos aos meus pais, tios, primos e a todos os curiosos da pequena e fantástica Cachoeiro de Itapemirim.

“Você nem merece ser feliz, menina. Destruir uma família desse jeito. Sabia que os pais tiraram o garoto de casa? E a carreira dele, já pensou?”

Eu salvei a vida do Pedro Augusto. Salvei mesmo. Agora ele pode estar com todos que quiser, em qualquer lugar do mundo. E qualquer lugar do mundo, meus queridos, é melhor que aquilo lá.

“Ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro.”

Dizem que maresia estraga tudo, mas essa janela não fecho nunca.
Nesse ponto você tinha razão, mamãe. Isso aqui é a coisa mais linda que existe.


por
Patrícia Lopes

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Cheiro de Peixe

Por Adriane Salomão


Da janela vejo os lixeiros limpando a rua, as vassouras vão e vem de um lado a outro num barulho meio metálico, repetitivo, como se pedissem silêncio, impacientes. sssh sshh ssshh. Um balé sem qualquer graça, apenas querendo ser eficiente. Os homens ignoram, falam alto, dão ordens e seguem com suas vassouras que dançam insistentes, irrequietas naquele ritmo monótono na tentativa absurda de eliminar o odor de peixe da rua, deles próprios.
A feira já passou, o lixeiro também, mas o odor fica embriagando meus pensamentos. Meus pensamentos que também ficam embrulhados em cheiro de peixe. Ah, se pudesse o lixeiro vir aqui lavar, vir aqui enxaguar esse cheiro de saudade, essa coisa de amor que embriaga meu peito, minha alma, meu corpo todo. Ah, se pudesse ser peixe e mergulhar na vassoura do lixeiro, enfiar todo sentimento pelo ralo. Ainda que tivesse que encontrar com o esgoto, com espinhas mortas, ele chegaria ao mar. Tudo estaria livre, estaria a céu aberto e não mais aprisionado num coração tolo, próprio lixo em forma de pulsar.
Mas mar também inunda. Seus silêncios profundos de oceano, sua espuma branca que cospe para a terra qualquer coisa sem defesa ou julgamento, tornando tudo novamente real, como se fosse vingança. Também no mar meu peixe pensamento vagaria lá e cá infinitamente. Lembraria de novo aquele balé de vassoura da feira da esquina e pelo mar seria cuspido, bem na minha frente.

RJ 06/04/08

terça-feira, 15 de abril de 2008

Seu Bertrando

Autor: Flavio Salles

E ninguém entendia a razão de viver de Seu Bertrando. Seria ele feliz daquela maneira? Sempre pronto a prever o pior resultado, a levantar a hipótese mais triste, aquela que ninguém ousaria considerar.

- Vamos perder o trem.
- Vocês sabe que, nessa época do ano, costuma chover praquelas bandas.
- Desta vez vamos perder de goleada.
- Ih, rapaz, aquele lá não passa deste ano.

Se o Sol firmasse ou se a seleção desse um sacode, raramente alguém se lembrava de Seu Bertrando. Ele não comparecia a comemorações. Achava que trazia má sorte. Ficava em casa, sentado no sofá, luz apagada, resmungado: Foi por pouco, rapaz, por pouco.

Alguns achavam que ele queria se isentar de qualquer culpa, por qualquer coisa que desse errado no mundo.

Infelizmente, às vezes, o velho acertava. Nestas ocasiões, ficava agitado. Era óbvio que isso iria acontecer. Eu não falei? Era óbvio. Repetia esta ladainha, andando pra lá e para cá, esfregando as mãos. Mais de uma pessoa que presenciou esta cena relatou que, em certos momentos, parecia que Seu Bertrando armava um sorriso e, quando se dava conta de estar sendo observado, esgarçava a boca, olhava para o céu e soltava um lamento gutural: “Ai, meu Pai amado.”

Há uns dois anos, Seu Bertrando perdeu sua esposa. D. Henriqueta tinha 84 anos e sofria de diabetes. Mas não morreu de diabetes não. Morreu dormindo, tranqüila, com um sorriso doce no rosto. Mas durante o velório, o viúvo repetia para cada um que vinha lhe prestar os pêsames: É muito triste, não é? Suspirava e completava, mas não foi por falta de aviso. Desde a primeira vez que fomos tomar sorvete na praça, eu a repreendi, Queta, Queta, duas bolas?

Na memória de todos os presentes, a lembrança maior de D. Henriqueta eram suas palavras sempre amáveis, defendendo o marido: Bertrando é esquisito, mas é um homem bom. Ele só gosta de estar sempre certo.

Desde este dia, Seu Bertrando reza todas as noites. Não por acreditar em Deus, mas por temer que ele exista e lhe dê um destino inesperado: um acidente rápido e fatal ou pior, uma passagem tranqüila como a de D.Queta. Seu desejo mais profundo é que na hora de sua morte, quando pressentir a proximidade do suspiro derradeiro, ele possa dizer, sussurrar, ainda que solitário:
Rapaz, bem que eu falei.

Hoje está relampejando. Seu Bertrando não vai à missa.

A evangélica pirada

Autor: João Sanches


Desde o primeiro dia em que a conheceu, Luis Cláudio nunca imaginou a possibilidade de sua namorada, Rafaela, ser uma evangélica. Não que tivesse alguma coisa contra, em princípio não, ela nem tinha o perfil de uma evangélica tradicional, aliás, até preferiria que tivesse, suas saias estavam cada vez mais curtas.

A gata era pirada. Curtia rock´n´roll, gostava de dançar, não podia beber muito que dava vexame. Queria fazer vestibular para Belas Artes. Pintava e bordava com Luis Cláudio. Ele havia entrado na universidade há pouco tempo, ganhara um carro de presente do pai e Rafaela sempre tinha um lugar para ir.

O namoro era quente, Luis se sentia um menino nas mãos de Rafaela. Ele estava apaixonado, ela fazia o que queria e não queria pouco. Beijava, mordia, agarrava, deixava Luis cheio de marcas no pescoço, sua mãe sempre perguntava o que era aquilo. Em dois meses de namoro nunca ouviu Rafaela tocar no nome do Senhor, por isso, inclusive, que nunca havia pensado na hipótese dela ser crente. Acontece que, apesar dos dois meses de namoro quente, eles ainda não tinham transado. Rafaela sempre dava um jeito de escapar. Até Luis não agüentar e perguntar por quê ela o evitava. Foi quando recebeu a notícia:

- Sou evangélica. Só depois do casamento.

Em que fria eu me meti, Luis pensava. Não sabia nem se iria casar um dia e, se fosse, se seria com ela. Além do mais, não sabia se conseguiria agüentar mais um mês, quem dirá até depois do casamento. Luis teve vontade de chorar. Porém, no outro dia, recebeu um telefonema de Rafaela convidando-o para ir à sua casa, pois estava sozinha. Era um plano da garota.

Chegando lá, encontrou Rafaela nua em cima da cama. Naquela noite, ela mostrou para ele as infinitas possibilidades de prazer que poderia lhe proporcionar (sem perder a virgindade, é claro). Luis Cláudio enlouqueceu. Depois daquela noite, decidiu que quem espera sempre alcança e resolveu aprender, enfim, a rezar o “Pai Nosso” direitinho.

A BOLSA

Autor: João Sanches

Era uma oportunidade única. Um curso com ela, a sua escritora favorita. Um curso raro, uma oportunidade rara, uma rara escritora. Tinha que fazer.
- Você já viu o preço?
Dois dias de oficina, um preço simbólico para uma experiência imensurável. Mas pesado para o momento daquele jovem escritor.
- Tinha que ter um problema.
- Pede uma bolsa.
- Pra quem?
- Pra professora.
- E questionar o valor do curso? Essa oportunidade não tem preço.
- Tem. E você não pode pagar.
- Eu tenho que me lascar e arranjar o dinheiro.
- Então se lasque.
Não, não ia pedir uma bolsa. Não era justo com a sua escritora favorita, logo ele, um admirador tão declarado. E quem disse que ela daria uma bolsa pra ele? Por quê? Nem sequer o conhecia. Lembrou do cartão de crédito. Já tinha tomado uma cerveja na casa onde aconteceria o curso, eles aceitam cartão. Era só ligar. Mas tinha que ter um problema.
- Eu não vou perguntar se eles aceitam cartão.
- Mas você não quer saber?
- Eles vão achar que estou pechinchando, uma ofensa, meu Deus do Céu! O que é que eu faço?
- Você não tem uma amiga que trabalha lá?
E-mail. A tecnologia é uma Deusa generosa para quem tem acesso ao seu condomínio fechado. Ele tinha internet. Mandou um e-mail para amiga perguntando sobre o cartão. A amiga baiana entrou na história para resolver o conflito essencial. Respondeu ao e-mail dizendo que havia pedido uma bolsa para ele. A escritora concordou. Meu Deus do Céu!
- Que vergonha, todo mundo vai saber que eu sou o aluno da bolsa! Ou, pelo menos, ela – o que é pior!
- Não adianta insistir. Você não tem um problema, Gustavo. Seu amigo foi pra casa.
Que vergonha, que culpa, que loucura, uma bolsa! Como é que eu vou retribuir? Como é que eu vou justificar? Como é que vou? Agora tenho que ser um aluno exemplar, tenho que participar, tenho que... Será que ela vai pedir pra gente escrever lá?? Desespero.
- Eu não vou pro curso. Ligou pro seu amigo.
- Eu realmente não tenho como te ajudar, Gustavo.
Dois dias de sofrimento e Gustavo foi. Chegou no curso tenso, segurando a onda. Os alunos lá, possivelmente escritores conhecidos, reconhecidos, profissionais e pagantes integrais daquele valor tão pequeno. Para eles. Que vergonha. Segura onda, Gustavo. Você já está aqui, pensava.
E num segundo já estava ali também ela, a escritora. Um mulher alta, exuberante, bonita, portando sua imensa bolsa vermelha, seus óculos pretos moderníssimos, saltos altos como seus vôos literários. Vamos começar. Que experiência! A aula, as considerações, as dicas, a visão apaixonada dela, simples, humana, aquele contato extrapolava qualquer expectativa. Ela não era apenas talentosa – era fina, elegante e sincera. Como na música. Mais do que isso, era uma pessoa capaz de tocar, capaz de despertar o melhor em cada um dos presentes.
No momento em que Gustavo fazia essa reflexão, a escritora falou:
- Agora, vamos escrever.
Tinha que ter um problema. Sem pressão, vamos tentar. Uma idéia, preciso de uma idéia. Dez minutos. Ai, a bolsa. Tenho que escrever alguma coisa. E boa. Trinta minutos. Não precisa ser boa. Tenho que escrever qualquer coisa ou ela vai se perguntar o que estou fazendo aqui. Uma hora. Uma aluna, escritora famosa com certeza, apresentou sua crônica “A idéia fugiu”. Que inveja, por que eu não tive essa idéia? Duas horas. A professora se manifestou:
- Vamos finalizando? Quem quiser, pode ler. Quem não quiser, pode terminar em casa e trazer amanhã.
Terminar o quê? A idéia fugiu! Cacete... Esquece, essa não vale.
Vexame. Nem uma linha. Nenhuma idéia. Prometeu que amanhã traria sua crônica. Mais um problema. Acabou a aula. Foi o primeiro a sair, cabeça baixa, um rápido tchau para escritora que esperava sua carona na porta. Não conseguiu mirá-la nos olhos. Seguiu. Perto de casa, pensou em ligar pro seu amigo. Ele iria atender. Cadê o celular? Aqueles dias estavam mesmo complicados.
Voltou à casa onde curso acontecia e a encontrou fechada. Tocou na campainha. Nada. Ninguém. Respirou fundo. Ia ter que ler o horóscopo semanal, tinha alguma coisa errada com ele. Virou-se para ir embora. Deixa pra lá. Mas avistou nesse momento uma bolsa vermelha. Deteve-se. Olhou fixamente. Em cima do parapeito, onde a escritora estava quando ele saiu. Ali, silenciosa, indefesa, esquecida. Abriu a bolsa. Cheia de notas, alguns cheques e uma lista. Pegou a lista. Muitos nomes, o seu não estava lá. Teve certeza. Era a bolsa da escritora.
Devolveu orgulhoso. Enquanto pensava, essa mulher não existe, é ficção. Duas bolsas e uma idéia. Salvo três vezes. Ela sabe resolver conflitos.
- Sim, mas e a crônica? Será que vale contar essa história?
- Não adianta insistir. Você não tem um problema, Gustavo.

Rio

Autor: João Sanches

Primeiro foi a limpeza espiritual: banho de folha, ebó para abrir os caminhos, resguardo, branco durante uma semana. Estava pronta pra ir pro Rio.
A chegada maravilhosa, os amigos no aeroporto, as ruas largas, que cidade linda, muitos caminhos. Todo abertos, garantia do pai de santo.
Uma semana e nada. Os amigos ocupados, a roupa arrumada no armário, já conhecia a galera do apartamento, mas nenhum contato.
- Aqui só tem trabalho pra quem tem contato. Foi informada pelo colega mineiro.
Um ano e nada. Nenhum contato. Onde é que eles moram? Uma atriz baiana com o talento trancado num quarto em Copacabana. Vamos fazer alguma coisa. Currículo em todos os lugares. Eu não vou produzir, sou atriz. Pensava.
Um ano, uma semana e nada.
- Você tem que produzir a sua peça.
- Mas eu não tenho dinheiro.
- Ninguém tem.
Um ano e meio e nada. Ligou pro pai de santo.
- Tenha calma, minha filha. Quer dinheiro emprestado?
O telefone toca. O currículo. Um teste. Não passou, mas o diretor adorou. Um contato, pelo menos. E assim foi. Alguns telefonemas com o passar dos meses e nada. Apenas testes.
Dois anos. A situação gravíssima, começou a trabalhar num bar, um contato. Precisava pagar as contas, mas não ia produzir. Era atriz e pronto. Não ia produzir. Mas o bar... Ela estava cada vez mais distante da sua sonhada carreira de atriz. Chegou o limite. Chegou o desespero.
- Preciso do meu pai de santo.
- Sem condição. Ele não atende pelo telefone. Mas eu conheço uma pessoa. Sua amiga sugeriu.
D. Benta era baiana legítima, nascida no recôncavo, berço do ancestral Axé brasileiro. Descreveu a vida da atriz como nem sua amiga íntima faria. Só isso já valia a sessão. Mas jogou os búzios e teve o diagnóstico.
- Minha filha, você quer um contato, né?
- É tudo que eu quero nessa vida.
- Mas você não tá achando, né?
- Onde encontro, minha mãe?
- Minha filha, contato não se acha. Se faz.
- E aí, minha mãe?
- Você tem que produzir.
Veio a iluminação. A atriz saiu felicíssima. Ia produzir. Não ia mais ser testada, ia testar. Nada de ser contratada, ia contratar. Nada de esperar por convite, convidar. Autor, diretor, colegas, ia produzir a sua peça. Saiu felicíssima. Não fazia a mínima idéia de como produzir, mas ia. Produzir.
E pensou em aceitar o dinheiro emprestado do seu pai de santo.

sábado, 12 de abril de 2008

Botetim de ocorrência

BOLETIM DE OCORRÊNCIA.





Ela tinha mar no nome. O nome dela era Mariana.
Ele não tinha nome. Tinha apenas um sobrenome, sobrenome importante.
Ela caminhava em direção ao Arpoador no calçadão. Ele caminhava em direção ao Leblon.
Ela gostava de caminhar todo dia. Ele só estava caminhando pra ver se encontrava a turma do vôlei ali mais adiante na praia, que estava cheia. Cheia de carros estacionados, cheia de verão.
Ela estava vindo com aquele short amarelo cor de sol. Blusa de regata displicentemente largada sobre o short. Ele estava vindo com uma camiseta de grife e um short de surfista . Tênis de atleta. Chave do superhipermegacarro importado na mão. Ela sem nada na mão. Apenas seus dedos perfeitos, suas unhas impecavelmente cortadas, nem um anel. Só um a fita do Senhor do Bonfim no pulso.
Ele foi o primeiro a vê-la. O amarelo do seu short reluziu na retina dos olhos dele já de longe. Aí prestou atenção no balanço que ela vinha. Ela olhou sem querer para o relógio digital. Faltava um minuto para às 10 da manhã. Em seguida seus olhos na mesma altitude encontraram a figura dele, que vinha caminhando com passos largos, nem rápido, nem devagar, com aqueles ombros largos, um boné que escondia uns cabelos louros encaracolados, e uma pele muito morena. Isso que chamou sua atenção. Devia gostar de praia.
E ele gostava. Gostava principalmente de mar. E Mariana tinha o mar não só no nome, como na tatuagem.
Ele foi se aproximando. Ela foi se aproximando. Aí aconteceu a colisão. Ele devia estar a 3 km por hora e ela a 4 talvez. Ele sentiu o choque. Ela também. Nenhum dos dois estava de cinto de segurança e o inevitável ocorreu: os olhos dela foram abruptamente jogados para dentro dos olhos dele. Os cabelos dela voaram por causa do choque numa velocidade redobrada e apontaram quase que eretos para ele que estava visivelmente aturdido com a colisão. Não houve testemunhas. Mas havia marca da batida tanto nele quanto nela. Mariana pensou é ele, sei que é ele, é o homem da minha vida. Ele pensou a mesma frase no feminino.
O corpo de Mariana foi passando por ele. O corpo dele foi passando pelo de Mariana. Os olhos de Mariana que estava dentro dos olhos dele gritaram pra ela: ei eu estou ferido, me socorre! Estou perdido! Mariana não ouviu. Ele continuou em frente e o medo de ser o culpado por aquela colisão o levou a fugir do local. Não sabia como agir. Mariana olhou o relógio de novo que marcava 10 em ponto. Não viu que seus olhos, seus dentes, uma parte de seus cabelos e um pedaço de sua perna tinha ficado no local da colisão.
De repente ela ouviu: ei, espera, você aí , espera. Era ele. Ela parecia ouvir a sirene dos bombeiros se aproximando. Iria ser socorrida. Ele também. Iriam se machucar ainda por muitos motivos. Graças a Deus.

lilian lovisi

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ela vem e fica

Autora: Lorena Maués

Fala-se muito em dor, amor, angústia, tristeza. Mas não se fala no sentimento de culpa. Sentimento que emaranha, ataca as entranhas, chafurda a gente na lama.
Quem nunca sentiu culpa por ter gritado ou por ter calado. Por ter ido ou por ter vindo. Por ter vivido ou por ter esquecido. Ou quem nunca sentiu a culpa kafkiana e sentiu-se enroscado numa teia de aranha.
Uma criança quando é chamada a atenção logo coloca a culpa na outra. E a outra na outra.
A mãe faz o filho sentir-se culpado para poder controlá-lo e o filho faz a mãe sentir-se culpada para não ser controlado.
Se um casal termina sempre tem aquele que culpa e o outro que se sente culpado.
E a culpa sai solta por aí. Por onde passa modifica algo. Superficial ou profundo. Ela não vem e vai como a dor, a tristeza ou a angústia. A culpa não. Ela fica. Fica e modifica e danifica.
Às vezes é necessário que a culpa corroa a alma. Pra aprender. Outras vezes é necessário resignar-se. Pra esquecer a culpa. E muitas vezes é necessário parar de se culpar. Porque podemos errar.

O Rio não continua lindo

Autora: Lorena Maués

Juliana nasceu em Brasília, mudou-se para Manaus e foi criada em Minas. Mas seu coração sempre foi carioca. Desde os tempos de menina, quando visitava o seu avó no Leme. Aliás, mudar-se para o Rio foi o seu sonho de criança, depois de adolescente. Realizou quando foi aprovada no vestibular para medicina e foi morar em Niterói. Bom, não era exatamente no Rio. Mas o que importava? Ao menos ela podia ver a cidade todos os dias. E sempre que podia vinha para o lado de cá.
Juliana costumava dizer que o dia mais feliz da sua vida foi quando viu o Rio pela primeira vez como moradora. Ela estava na Cantareira, em Niterói, e com os olhos cheios d´água virou-se para o seu primeiro amigo carioca e disse: "Xande, Baía de Guanabara". Xande achou um pouco esquisito aquela frase solta, mas não comentou nada. Em seguida, Juliana com a voz meio embargada soltou: "Xande, Morro da Urca". Aí não se conteve e chorou.
Esse dia virou senha de banco e de e-mail. Afinal jamais esqueceria o dia exato que viu o Rio de Janeiro pela primeira vez como moradora.
Mas o tempo foi passando e os problemas na cidade aumentaram. Trânsito, violência, sujeira. Juliana foi aos poucos de decepcionando, mas continuava convicta de que, apesar de tudo, o Rio continuava lindo.
Um dia Juliana acordou-se sentindo mal. Foi para o hospital. O diagnóstico: Dengue hemorrágica. Juliana morreu. O Rio agora não continua mais lindo pra ela. Nem para Xande. Nem para os seus pais. Nem para os outros amigos cariocas que conheceu.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dona Zezé

Autora: Patrícia Lopes

- Prometem que não vão contar para ninguém?
Era sempre assim que ela começava as histórias, as melhores histórias que já ouvi. Nem ler ela sabia. "Tá tudo aqui, ó.", falava, apontando para a cabeça, num gesto todo dela. E estava mesmo.
Tinha história de quando ela era passista da Mangueira e quase fez um deputado largar família e tudo.
Tinha história triste, do avô dela que era escravo na Bahia.
- Escravo igual na novela, Dona Zezé?
- Igualzinho – respondia, deixando a gente assustado e muito orgulhoso de saber uma coisa tão importante.
- Prometem que não vão contar pra ninguém?
Jurávamos que não, na hora, claro que não. E não contávamos mesmo. O que a gente mais gostava era isso. Só nós 3 tínhamos a chave secreta daquele tesouro, daquelas relíquias que eram as histórias da Zezé.
- Vocês sabiam que eu tive 14 irmãos?
E a gente ria, não era possível. E ela falava o nome de um por um. Nossos olhos arregalavam e passávamos a semana cochichando aquilo.
Um dia mamãe chegou muito séria, séria demais para quem vai falar com as crianças. Dona Zezé não ia mais voltar. Mamãe explicou que a culpa era do coração dela, que era muito fraco. A gente achou aquilo um absurdo, se tinha uma coisa que era forte na Dona Zezé era o coração.
-Ela não volta nunca mais?
Entramos no quarto revoltados: como a Zezé podia nos deixar assim? Quanta coisa a gente estava perdendo, quanta coisa ia perder?
- E quando a Zezé veio do nordeste sem ter onde ficar e dormiu um mês inteiro na praia?
- E quando ela fugiu da roça pra ficar com um marinheiro?
- E nem marinheiro de verdade ele era! O uniforme era roubado!
Foi assim que ela voltou pra gente, no contar e recontar daquilo tudo, até hoje. E agora eu conto pras crianças, que não acreditam em como eu posso saber tanta história.
- Tá tudo aqui, ó - Explico pra elas, que adoram a Zezé como se ela ainda morasse na nossa casa.

Texto da Paula

Autora: Paula Santos

Sempre saía da aula quinze minutos mais cedo. Meu almoço era um sanduíche no ônibus, o que invariavelmente me fazia chegar na redação e ir direto ao banheiro limpar a blusa. E não adiantava o guardanapo no colo, já que o tomate insistia em pingar cada dia num lugar diferente.

Chegava sempre ofegante, e não era exatamente pela pressa. O nervosismo me deixava com pouco ar. Procurava um computador que pudesse chamar de meu, pelo menos durante aquele dia. Quanto mais cedo chegasse, maiores as chances. Só havia três computadores para os estagiários, que infelizmente éramos 4.

Enquanto meu corpo se acomodava à cadeira de rodinhas e meus ouvidos à constante de vozes e teclados sobrepostos, checava meus emails. O endereço eletrônico - meunome@onomedojornal.com - era a confortável prova cabal de que eu não havia descido do elevador no andar errado. Diariamente uma torrente de mensagens chegava naquele endereço, e qualquer zé ninguém se sentiria peça essencial no funcionamento da cidade frente 'aquela tela.

Esconder minha condição de estagiária era regra de etiqueta no relacionamento com os entrevistados. Me sentia uma espiã russa frente a um agente da CIA. A qualquer momento descobririam que eu era uma fraude. Simulava o diálogo em voz alta e só depois de repassá-lo em 3 versões diferentes juntava coragem e telefonava.

Um dia cheguei mais tarde por conta de uma prova na faculdade. Sentei-me num computador e em meia hora comecei a ser acusada.
"Você roubou meu computador"- bradou a estagiária-modelo.

A estagiária-modelo chegava mais cedo e saía mais tarde. Fazia as obrigações da sua editoria e se oferecia para ajudar as outras. Adorava dar plantões nos finais de semana. E apesar de ter sido escalada para trabalhar no Natal, ofereceu-se também para o Réveillon, porque achou emocionante a idéia estar no Batalhão de Polícia enquanto espocavam os fogos em Copacabana . Se dava super-bem com a sua chefe e com a minha, com quem aliás havia acabado de almoçar. Eu nunca tinha almoçado com a minha chefe.

Rapidamente me justifiquei: o computador estava vazio, e eu também precisava trabalhar. Ela começou a argumentar alto, de modo que a sua chefe e a minha se aproximaram. Clamava pelo seu direito de terminar a matéria no computador onde havia começado. Com o apoio das chefes, ela ganhou razão. Eu fui hierarquicamente obrigada a me levantar e moralmente obrigada e pedir desculpas e abrir um sorriso. Devastada, comecei a vagar pela redação a procura de abrigo.

Fui acolhida pela ala dos colunistas sociais, já que um deles estava de férias. Era obrigada a escrever uma notinha a cada dois dias para pagar o uso do computador, sobre a suspeita de que fulana havia feito plástica ou o fulano da novela que estava internado com hemorróidas. Mas minha vida melhorou muito. Longe daqueles mártires do jornalismo, encontrei pessoas que me ofereciam chicletes sem açúcar, me convidavam para almoçar no vegetariano e ainda elogiavam meus textos.

A melhor crônica

Autora: Lilian

A melhor crônica seria aquela capaz de encostar na pele do primeiro leitor. Como ferro de passar. Ou provocar um sinônimo de arrepio, só não escrevo arrepio porque a melhor crônica não deveria ter uma palavra tão comum para expressar uma coisa tão difícil de expressar que é o arrepio.A melhor crônica seria aquela que faria parar as mãos de um assassino, de qualquer assassino, de Isabelas, de Pedros. De qualquer criança. Inclusive daquelas que moram no coração de alguém e que mais alguém insiste que ela tem que sair dali.A melhor crônica seria aquela capaz de sensibilizar os caçadores de foca do Canadá. Que sensibilizasse também mais a opinião pública do que aquelas fotos que derramam sangue e mostram os porretes entrando pela cabeça adentro de filhotes e famílias inteiras de focas.A melhor crônica deveria fazer estes caçadores por um átimo de segundo pensarem. Se reunirem todos e decidirem que nunca mais farão uma coisa assim.A melhor crônica seria aquela capaz de fazer os políticos se envergonharem dos seus atos contra a sociedade. A melhor crônica seria aquela que teria a frase correta que levaria políticos corruptos até a delegacia de policia mais próxima e confessar: Roubei! Roubei! E assim que saíssem dali, que fossem direto para o instituições de caridade, para orfanatos, para Ongs, devolver todo o dinheiro que roubaram. Devolver para os cidadãos e não para outros políticos, porque veja bem, nem todo político corrupto lê a melhor crônica.A melhor crônica seria aquela que faria a diferença no mundo. Seria aquela que faria os lideres de paises que estão em guerra se reconciliarem e ainda perguntarem se o pais inimigo não quer ajuda para se reconstruir.A melhor crônica seria aquela que convenceria a mim e a cada um dos seres humanos, que ainda é possível ser um ser, não mais humano, apenas humano.Mas a melhor crônica mesmo seria aquela capaz de fazer os integrantes desta oficina de crônica se comunicarem uns com os outros.

Trânsito da Vida

Autor: Flavio Salles

Uma coisa que me enlouquece são as barbeiragens que nego faz no trânsito. Jogo farol alto, buzino, abro a janela, xingo todas as gerações do cara, pode ser motorista de ônibus, táxi, van, cegonheira. Tenho medo, não.

Não interessa que, pelo menos uma vez, eu tenha feito cada uma delas.
Aquele dia que parei no meio da rua, foi para esperar alguém ou deixar alguém, sei lá. Foi rapidinho. E ainda liguei o alerta, pô?

Às vezes, para o carro na garagem de um prédio, mas só quando preciso deixar um documento na portaria, coisa importante. Mas sempre aparece um babaca de um morador que cola na minha traseira. Aí. só de sacanagem, desligo a chave e saio o carro.

Aqui na frente de casa, faço um contramãozinha todo o dia, mas é só neste trechinho. Nem pelo cacete eu vou dar aquela volta enorme. Minha mulher dá. Não entendo.

Avanço o sinal, mas só quando acho que não vem ninguém ou se acabou de virar do amarelo.
Acostamento, eu respeito. Se bem que no Carnaval ...No carnaval, na Manilha, não dá para ficar pra trás, bancando o otário. Não vou demorar 4 horas para chegar em Cabo Frio.

Não, eu não estou me justificando.

E se eu tivesse um cargo político? E se meu pai tivesse me batido na cara? E se ela tivesse me traído? E se eu tivesse uma arma naquela hora?

É. Não sei por que mão eu seguiria.

Crônica para ler enquanto chora

Autora: Killiana Britto

Chore. Chore muito. Chore tudo que tem pra chorar. Não poupe uma gota. Transborde. Você pode, deve, merece. Aceite a gota d’água.
Todo mundo chora, vai por mim. Até uma vaca chora, eu vi, vi lágrimas nos olhos de uma vaca. Uma vaca linda, grande, gorda. Imagino a quantidade de leite que é capaz de produzir pelo tamanho de suas tetas, lindas, penduradas, pesadas, cansadas, vai que é daí que vem as lágrimas. Então, chore, não há de secar a fonte. Hoje por isso, amanhã por aquilo e por aí vai, todo dia. Então chore e divirta-se um pouco com tudo isso. É. Admiro os trágicos e suas lágrimas, acho deliciosa uma cena dramática, lava a alma. Quando começar a chorar aproveite o embalo e entre em cena, isso, em cena. Por exemplo, uma notícia trágica: “criança é arrastada por um carro”. Quando começar a chorar, indignada, triste, revoltada, perplexa, perceber que estes sentimentos são tão verdadeiros, vicerais, espontâneos diante um acontecimento tão ediondo, segure! Isso, segure! Vá até o espelho mais próximo, mantendo esse estado emocional de que o mundo acabou naquele instante e que nada mais faz sentido, olhe para o espelho bem no fundo dos seus próprios olho e diga com ênfase:
- Eu nunca mais passarei fome!
Não se convenceu? Pois é, é preciso convencer-se a si antes de convencer qualquer outra pessoa, mesmo a do espelho.
Mais uma tentativa, vamos lá, você consegue:
- Ah Jasão, por amor matei nossas crianças!
Péssimo, não? Isso não faz o menor sentido.
Agora respire fundo, olhe bem no fundo dos seus olhos mais uma vez e desista. Sim, desista.
Agora espere.
O silêncio, um espelho, uma imagem e lágrimas, muitas lágrimas. Então chore. Chore muito. Chore tudo que tem pra chorar. Não poupe uma gota. Transborde. Você pode, deve, merece. Que seja a gota d’água.