sábado, 12 de abril de 2008

Botetim de ocorrência

BOLETIM DE OCORRÊNCIA.





Ela tinha mar no nome. O nome dela era Mariana.
Ele não tinha nome. Tinha apenas um sobrenome, sobrenome importante.
Ela caminhava em direção ao Arpoador no calçadão. Ele caminhava em direção ao Leblon.
Ela gostava de caminhar todo dia. Ele só estava caminhando pra ver se encontrava a turma do vôlei ali mais adiante na praia, que estava cheia. Cheia de carros estacionados, cheia de verão.
Ela estava vindo com aquele short amarelo cor de sol. Blusa de regata displicentemente largada sobre o short. Ele estava vindo com uma camiseta de grife e um short de surfista . Tênis de atleta. Chave do superhipermegacarro importado na mão. Ela sem nada na mão. Apenas seus dedos perfeitos, suas unhas impecavelmente cortadas, nem um anel. Só um a fita do Senhor do Bonfim no pulso.
Ele foi o primeiro a vê-la. O amarelo do seu short reluziu na retina dos olhos dele já de longe. Aí prestou atenção no balanço que ela vinha. Ela olhou sem querer para o relógio digital. Faltava um minuto para às 10 da manhã. Em seguida seus olhos na mesma altitude encontraram a figura dele, que vinha caminhando com passos largos, nem rápido, nem devagar, com aqueles ombros largos, um boné que escondia uns cabelos louros encaracolados, e uma pele muito morena. Isso que chamou sua atenção. Devia gostar de praia.
E ele gostava. Gostava principalmente de mar. E Mariana tinha o mar não só no nome, como na tatuagem.
Ele foi se aproximando. Ela foi se aproximando. Aí aconteceu a colisão. Ele devia estar a 3 km por hora e ela a 4 talvez. Ele sentiu o choque. Ela também. Nenhum dos dois estava de cinto de segurança e o inevitável ocorreu: os olhos dela foram abruptamente jogados para dentro dos olhos dele. Os cabelos dela voaram por causa do choque numa velocidade redobrada e apontaram quase que eretos para ele que estava visivelmente aturdido com a colisão. Não houve testemunhas. Mas havia marca da batida tanto nele quanto nela. Mariana pensou é ele, sei que é ele, é o homem da minha vida. Ele pensou a mesma frase no feminino.
O corpo de Mariana foi passando por ele. O corpo dele foi passando pelo de Mariana. Os olhos de Mariana que estava dentro dos olhos dele gritaram pra ela: ei eu estou ferido, me socorre! Estou perdido! Mariana não ouviu. Ele continuou em frente e o medo de ser o culpado por aquela colisão o levou a fugir do local. Não sabia como agir. Mariana olhou o relógio de novo que marcava 10 em ponto. Não viu que seus olhos, seus dentes, uma parte de seus cabelos e um pedaço de sua perna tinha ficado no local da colisão.
De repente ela ouviu: ei, espera, você aí , espera. Era ele. Ela parecia ouvir a sirene dos bombeiros se aproximando. Iria ser socorrida. Ele também. Iriam se machucar ainda por muitos motivos. Graças a Deus.

lilian lovisi

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