quarta-feira, 16 de abril de 2008

Cheiro de Peixe

Por Adriane Salomão


Da janela vejo os lixeiros limpando a rua, as vassouras vão e vem de um lado a outro num barulho meio metálico, repetitivo, como se pedissem silêncio, impacientes. sssh sshh ssshh. Um balé sem qualquer graça, apenas querendo ser eficiente. Os homens ignoram, falam alto, dão ordens e seguem com suas vassouras que dançam insistentes, irrequietas naquele ritmo monótono na tentativa absurda de eliminar o odor de peixe da rua, deles próprios.
A feira já passou, o lixeiro também, mas o odor fica embriagando meus pensamentos. Meus pensamentos que também ficam embrulhados em cheiro de peixe. Ah, se pudesse o lixeiro vir aqui lavar, vir aqui enxaguar esse cheiro de saudade, essa coisa de amor que embriaga meu peito, minha alma, meu corpo todo. Ah, se pudesse ser peixe e mergulhar na vassoura do lixeiro, enfiar todo sentimento pelo ralo. Ainda que tivesse que encontrar com o esgoto, com espinhas mortas, ele chegaria ao mar. Tudo estaria livre, estaria a céu aberto e não mais aprisionado num coração tolo, próprio lixo em forma de pulsar.
Mas mar também inunda. Seus silêncios profundos de oceano, sua espuma branca que cospe para a terra qualquer coisa sem defesa ou julgamento, tornando tudo novamente real, como se fosse vingança. Também no mar meu peixe pensamento vagaria lá e cá infinitamente. Lembraria de novo aquele balé de vassoura da feira da esquina e pelo mar seria cuspido, bem na minha frente.

RJ 06/04/08

Um comentário:

lilian lovisi disse...

Achei bonito quando ouvi e mais bonito agora que li.