Autor: Flavio Salles
E ninguém entendia a razão de viver de Seu Bertrando. Seria ele feliz daquela maneira? Sempre pronto a prever o pior resultado, a levantar a hipótese mais triste, aquela que ninguém ousaria considerar.
- Vamos perder o trem.
- Vocês sabe que, nessa época do ano, costuma chover praquelas bandas.
- Desta vez vamos perder de goleada.
- Ih, rapaz, aquele lá não passa deste ano.
Se o Sol firmasse ou se a seleção desse um sacode, raramente alguém se lembrava de Seu Bertrando. Ele não comparecia a comemorações. Achava que trazia má sorte. Ficava em casa, sentado no sofá, luz apagada, resmungado: Foi por pouco, rapaz, por pouco.
Alguns achavam que ele queria se isentar de qualquer culpa, por qualquer coisa que desse errado no mundo.
Infelizmente, às vezes, o velho acertava. Nestas ocasiões, ficava agitado. Era óbvio que isso iria acontecer. Eu não falei? Era óbvio. Repetia esta ladainha, andando pra lá e para cá, esfregando as mãos. Mais de uma pessoa que presenciou esta cena relatou que, em certos momentos, parecia que Seu Bertrando armava um sorriso e, quando se dava conta de estar sendo observado, esgarçava a boca, olhava para o céu e soltava um lamento gutural: “Ai, meu Pai amado.”
Há uns dois anos, Seu Bertrando perdeu sua esposa. D. Henriqueta tinha 84 anos e sofria de diabetes. Mas não morreu de diabetes não. Morreu dormindo, tranqüila, com um sorriso doce no rosto. Mas durante o velório, o viúvo repetia para cada um que vinha lhe prestar os pêsames: É muito triste, não é? Suspirava e completava, mas não foi por falta de aviso. Desde a primeira vez que fomos tomar sorvete na praça, eu a repreendi, Queta, Queta, duas bolas?
Na memória de todos os presentes, a lembrança maior de D. Henriqueta eram suas palavras sempre amáveis, defendendo o marido: Bertrando é esquisito, mas é um homem bom. Ele só gosta de estar sempre certo.
Desde este dia, Seu Bertrando reza todas as noites. Não por acreditar em Deus, mas por temer que ele exista e lhe dê um destino inesperado: um acidente rápido e fatal ou pior, uma passagem tranqüila como a de D.Queta. Seu desejo mais profundo é que na hora de sua morte, quando pressentir a proximidade do suspiro derradeiro, ele possa dizer, sussurrar, ainda que solitário:
Rapaz, bem que eu falei.
Hoje está relampejando. Seu Bertrando não vai à missa.
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2 comentários:
teste comentário
Adorei.Muito bem contado. Consigo ver Seu Bertrando na minha frente.
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